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quinta-feira, 7 de junho de 2007

Portugal - Promesas e esquecimentos do Senhor Engenheiro José Socrates a comunidade Portuguesa espalhada pelo Mundo na epoca das eleiçoes


Artigo de Opinião de Diana Karina


Resposta à consulta sobre Reestruturação Consular

Preâmbulo

O Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas analisou a proposta de reestruturação consular que lhe foi apresentada pelo Senhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, no dia 13 de Dezembro de 2006.

No seguimento da mesma, e apesar do pouco tempo de que dispúnhamos, foram consultados todos os Conselheiros a quem se pediram contribuições para a realização deste relatório.

Para além dos Conselheiros das Comunidades, chegaram também ao Conselho Permanente, contribuições de outros Portugueses que, espontaneamente, decidiram fazer chegar ao CCP as suas opiniões e as expressaram por outros meios, como por exemplo manifestações, abaixo assinados, cartas, etc.

Tal como está, o plano de reestruturação da rede consular apresentado pelo Governo, não corresponde às expectativas do Conselho das Comunidades.

Apesar disso, escolhemos elaborar um documento que analisa o plano do Senhor Secretário de Estado e faz propostas sobre o que pensa ser um início de uma verdadeira reestruturação consular.

Apesar disso, é necessário dizer que, lamentavelmente, o Conselho das Comunidades Portugueses não foi chamado a dar a sua contribuição previamente para a elaboração do plano de reestruturação consular.

Introdução

Tal como o Governo, também o CCP considera que as Comunidades portuguesas residentes no estrangeiro evoluíram, tendo evoluído também, tanto a capacidade de resposta dos postos consulares, como a procura e o perfil dos utentes.

É incontestável o interesse que Portugal tem vindo a dizer que depõe na vertente económica da diplomacia portuguesa, tal como é inevitável que as novas tecnologias e os novos meios de comunicação trazem grandes transformações à sociedade onde vivemos.

Por outro lado ainda, os fluxos migratórios continuam a ser uma nova realidade para Portugal. Só não acreditamos mesmo que sejam «maioritariamente migrações temporárias» porque «temporárias» eram já as emigrações mais antigas… que se prolongaram.

Para nós, que residimos no estrangeiro, é fácil compreender que os Portugueses que chegam anualmente aos cinco Continentes (nova emigração) são em número bastante superior aos cerca de 27.000 que o Governo anuncia.

Curiosamente, o plano de reestruturação consular não responde a estes itens que são citados logo no início do documento de trabalho do Governo: encerram-se postos consulares em regiões com grande implantação empresarial portuguesa, não se propõe nova gestão consular com informatização centralizada e não se abrem postos nas regiões para onde os Portugueses continuam a emigrar.

Assim, antes mesmo de redefinir um novo mapa da rede consular, é necessário tecer algumas considerações sobre o funcionamento dos Consulados.

Funcionários. Numa visão redutora, os Consulados podem ser vistos como meros centros emissores de documentos administrativos. Neste caso, não necessitariam de Cônsules e bastaria que tivessem funcionários em número suficiente e em condições adequadas, para responder às solicitações dos utentes.

Ora, constatamos que a maior parte dos postos consulares não têm funcionários em número suficiente para praticar os actos consulares que lhe são solicitados, causando filas de espera, por vezes em condições menos dignas do nosso país. Há situações em que os utentes têm de ir para as portas dos Consulados de madrugada e por vezes nem assim conseguem obter as «senhas» que lhes permitem ser atendidos no mesmo dia.

O envelhecimento dos funcionários consulares é preocupante. Pouco a pouco vão-se reformando e há muitos anos que não há concursos para novos empregados. Tendo em conta que é necessário um tempo de formação a qualquer novo funcionário para ser eficiente, os próximos anos anunciam-se dramáticos para o atendimento consular.

Também é preocupante a falta de chefias (vice-Cônsules e Chancelers) nos postos consulares. Em certos casos, quando só há uma chefia, é ainda mais preocupante porque o posto pode bloquear se a mesma se ausenta.

Articulação. Tal como o Governo, o Conselho das Comunidades Portuguesas considera que é possível fazer alterações à rede consular.

Sem querer ter um Consulado à porta de cada português, o serviço de proximidade tem de ser mantido e acrescido. Mas as estruturas consulares podem ser alteradas e adaptadas a novas situações, se ganhar em funcionalidade e em rapidez.

Há estruturas consulares que podem depender de outros Consulados. Há Consulados que podem recorrer a serviços de outros Consulados. Há serviços em certos consulados que podem também ser utilizados por outros postos.

Hoje, quase não há inter-actividade entre postos consulares. O exemplo mais flagrante é o dos postos consulares em países onde há Centros emissores de Bilhetes de Identidade que, em vez de recorrerem a estes, têm de solicitar a emissão de Bilhetes de Identidade a Lisboa, com os custos e os atrasos que tal decisão implica.

Uma reestruturação consular deve abordar em profundidade, estas novas articulações entre Consulados.

Cônsules Honorários. Por princípio, o Conselho das Comunidades não concorda que se substituam postos consulares por Consulados Honorários. Primeiro porque estes não respondem às necessidades dos utentes por não praticarem todos os actos. Por outro lado, por acharmos que o serviço público não deve ser «privatizado».

Concordamos pois com as afirmações que o Senhor Secretário de Estado fez quando chegou ao Governo (dizendo que não queria ver os Consulados honorários a praticar actos consulares) e estranhamos que o Homem de convicções que é, tenha mudado radicalmente de ideias.

Atendimento. Em certos postos, o atendimento consular ainda não é feito de forma personalizada e com a intimidade que se exige. E por outro lado, em certos postos consulares, os horários de atendimento são demasiado curtos.

Uma reestruturação consular tem de ter em conta este factor.

Informatização. Uma reestruturação que não passe pela criação de uma base de dados centralizada, será sempre um trabalho inacabado.

Não chega dizer que temos de utilizar as novas tecnologias. Temos de ter um novo desenho informático do serviço consular. Todos os Consulados têm de utilizar os mesmos programas, ter os mesmos modelos e estarem inter-ligados entre si, para poder responder sem qualquer problema a qualquer utente que recorra aos seus serviços, independentemente de residir nessa área consular.

A reestruturação consular tem de ousar abordar de vez esta questão da informatização consular.

Consulado virtual. O Conselho das Comunidades congratula-se pelo anúncio feito de criação de um Consulado virtual e evidentemente que não se opõe à sua concretização. Estamos mesmo bastante curiosos por saber quais os actos consulares que é possível praticar virtualmente.

Em nosso entender, uma reestruturação consular deve integrar este Consulado virtual e ser faseado: primeiro tem de ser lançado o Consulado virtual e depois, quando os utentes forem deixando de ter necessidades de ir aos Consulados, então poder-se-á analisar a possibilidade de os extinguir.

O Conselho das Comunidades não concorda que se encerrem postos consulares, argumentando que depois será criado um Consulado virtual, que venha responder às necessidades dos utentes. Primeiro deve criar-se o Consulado virtual e só depois se estudará o que se possa encerrar.

Mas um Consulado deve fazer mais do que os simples actos administrativos para os quais está vocacionado. A Comunidade evoluiu, mas não têm evoluído as funções dos postos consulares.

Cada país, cada zona consular deve ser analisada de forma diferente e específica. Mas para estas acções, a presença de um Cônsul parece-nos de grande importância.

Ensino. Em certos países, o trabalho do Cônsul de Portugal pode ser fundamental para a abertura de novos cursos de português nas escolas da área consular. Por vezes, sem qualquer custo para Portugal, a influência e o trabalho de negociação dos Cônsules, poderiam fazer com que mais crianças aprendessem a língua portuguesa nas escolas que frequentam.

Sabemos que este trabalho não está a ser feito pelos Cônsules de Portugal (e em certos Consulados, nem há Cônsules para o fazer!). Por isso, pensamos que a reestruturação consular deve ter em conta o número de professores de português e de alunos inscritos, mas também o número de potenciais escolas que poderiam ensinar a língua portuguesa e que não o fazem ainda. Desta forma se medirá se há ainda trabalho para manter um Cônsul de Portugal na área consular.

Empresas. O tecido empresarial português no estrangeiro é gigantesco. Quem melhor do que os Consulados de Portugal para listar as empresas portuguesas na área consular?

Por outro lado, cada vez há mais empresas em Portugal à procura de novos negócios no estrangeiro e os Consulados de Portugal deviam ser verdadeiros centros de informação sobre o tecido empresarial local.

Ora, é de constatar que, apesar dos discursos, os Consulados de Portugal no estrangeiro não estão a fazer diplomacia económica. Portugal está a perder muito porque não aproveita as potencialidades das suas Comunidades e porque não rentabiliza a sua rede consular.

Para nós, a reestruturação consular tem de ter em consideração a rede empresarial portuguesa na área consular, a dinâmica empresarial local e o trabalho de diplomacia económica que ainda está por fazer.

Social. O perfil das nossas Comunidades mudou muito nos últimos anos. Hoje, são evidentes as necessidades em apoio social e até laboral. Há Portugueses em situação social e financeira difícil, outros necessitam de apoio para preparar a chegada à idade de reforma, outros ainda são vítimas de abusos laborais.

Mas por outro lado, quase que já não há técnicos de serviço social nos postos consulares. Em nosso entender, uma reestruturação consular deve responder, com urgência, a este problema.

Cultura. Os Cônsules de Portugal podiam ter um papel importante na promoção da cultura portuguesa. Podiam identificar as estruturas culturais locais, conhecer as suas orientações e motivá-las a programar produtos culturais portugueses. Na sua grande parte, não o fazem.

Por outro lado, podiam identificar os agentes culturais de origem portuguesa que evoluem no estrangeiro e ajudar a estabelecer contactos com os programadores em Portugal.

Portugal tem estado a perder oportunidades neste campo e, em nosso entender, a reestruturação consular tem de ter em conta as potencialidades culturais da área consular.

Associativismo. Regra geral, o movimento associativo nas Comunidades é bastante rico. Mas com o passar dos anos, surgem novos problemas, dificuldade no rejuvenescimento dos dirigentes, falta evidente de apoios.

Os Consulados de Portugal devem ser agentes de formação e de informação das associações, ajudando-as a elaborar projectos e a defende-los, tanto junto do Governo português, como junto das autoridades locais.

Uma reestruturação consular deve ter em consideração o tecido associativo local, as actividades realizadas e os apoios que os Consulados deveriam dar às colectividades, mas não o dão.

Cidadania. A esmagadora maioria dos Portugueses residentes no estrangeiro continua a não exercer os seus direitos cívicos, tanto em Portugal como nos países de residência, sempre que tal seja possível.

Portugal não pode continuar de braços cruzados enquanto que uma franja importante da sua população não participa no exercício da cidadania.

Os postos consulares devem ter um papel activo na informação e na sensibilização para a inscrição nos cadernos eleitorais, tanto em Portugal, como no estrangeiro.

Por outro lado, quem melhor do que os Consulados, para listar os Portugueses e os seus descendentes que militam em partidos políticos locais e os que são eleitos para funções públicas?

A reestruturação consular deve ter em consideração o diferencial entre o número de Portugueses residentes na área consular e o número de inscritos nos cadernos eleitorais. Só assim se pode avaliar a necessidade ou não dos postos consulares.

Sobre o impacto financeiro da reestruturação consular

Compreendemos e partilhamos a necessidade de gerir, da forma mais rigorosa possível, os fundos públicos. Por isso, nunca nos oporemos a qualquer reforma que racionalize a rede e os serviços, de forma a fazer economias.

No entanto, de forma muito geral (mas podemos detalhar) não nos parece ser uma boa opção de ter de encerrar 17 postos consulares e despromover muitos outros (com todos os inconvenientes que daí advêm), para «apenas» economizar cerca de 3.600.000 euros.

Comparativamente a outros muitos gastos inúteis (que também não cabe aqui detalhar) noutros sectores em Portugal, consideramos que esta soma não é importante no Orçamento de Estado.

Assim, o Governo pouco ou nada economizará sobre esta reestruturação consular.

Tal como o Governo, os Conselheiros das Comunidades também estão interessados em encontrar receitas que permitam uma melhor sustentação da rede consular. As actuais propostas de poupanças ou de alienação de Património do Estado, feitas pelo Governo, parecem-nos inadequadas. Desta forma, sugerimos ao Governo que altere a actual regra de financiamento do Fundo de Relações Internacionais (FRI) e que a totalidade das receitas dos emolumentos consulares revertam a favor do Orçamento de Estado e sejam ventiladas de forma a reforçar as capacidades orçamentais, e por conseguinte, de acção, da rede consular.

Em conclusão, recusamos o plano de reestruturação consular apresentado pelo Governo porque consideramos que:

• Não aborda as questões fundamentais

• Tem consequências graves para as populações

• Não gera economias ao país

Não se percebe qual é a importância que o Governo quer dar à sua rede consular: meros agentes de actos consulares ou ferramentas indispensáveis para contribuírem na política de promoção cultural e linguística e no relacionamento entre Portugal e as Comunidades (políticas essas que aliás, também parece não existirem).

Percebe-se apenas que o Governo está mais preocupado em encerrar postos consulares e parece-nos (estaremos enganados?) que é esse o único objectivo desta reestruturação.

Nesta reestruturação consular, o Governo penaliza os países com os quais pretende manter relações privilegiadas (Espanha, França, Brasil e Estados Unidos) o que nos parecem preocupantes.

Podemos agora analisar, mais em detalhe a proposta de alteração da rede que nos foi apresentada pelo Senhor Secretário de Estado das Comunidades.

Alemanha

Durante a última campanha eleitoral para as eleições legislativas, o Partido Socialista prometeu que voltaria a transformar o Escritório Consular de Osnabruck em Consulado de Portugal. Esta promessa criou expectativas na população daquela região e que agora, afinal, não está a ser cumprida.

Actualmente, este Escritório consular continua sem ter qualquer posto de chefia (nem Vice-Cônsul, nem Chanceler) e por isso não pode corresponder aos anseios da Comunidade. Até porque tem um quadro de pessoal insuficiente e muitos documentos têm de seguir para Hamburgo para serem assinados.

Por outro lado, do ponto de vista político e económico e até cultural, Frankfurt é a principal cidade da Alemanha. Todos os bancos alemães importantes têm as sedes em Frankfurt. O próprio Banco Central Europeu tem a sua sede nesta cidade. A maior feira do Livro do mundo e uma das maiores Feiras internacionais do mundo têm lugar em Frankfurt onde Portugal está constantemente representado.

Transformar o Consulado de Portugal em Frankfurt num Vice-Consulado implica retirar o Cônsul de Portugal naquela cidade e, por conseguinte, perder oportunidades únicas para a projecção de Portugal.

A alteração do estatuto consular em Frankfurt é um prejuízo para a Comunidade de cerca de 20 mil portugueses residentes na área e também um desprestígio para a diplomacia portuguesa.

Trata-se de uma região com bastante dinamismo da Comunidade e, a título de exemplo, diga-se que foi a área consular com maior participação da Comunidade nas últimas eleições para o CCP. Porque razão se quer quebrar esta dinâmica?

Na Alemanha, pode ser feita uma nova redistribuição das áreas consulares e os Conselheiros das Comunidades estão disponíveis para trabalhar com o Senhor Secretário de Estado neste sentido. Por exemplo, na região da Baviera seria muito mais fácil fazer depender essa região a Frankfurt (a 45 Km de certas cidades) do que de Estugarda (a mais de 200 km).

A Secção da Alemanha do CCP propõe a extinção do Consulado Honorário de Munique, que não está a prestar nenhum serviço à Comunidade. Em alternativa, o CCP propõe que o Consulado-Geral em Estugarda garanta um serviço de aproximação aos Portugueses residentes na zona de Munique.

O plano de reestruturação consular não aborda a questão das instalações dos postos consulares e tem resposta particular para combater o estado de degradação das instalações do Consulado-Geral em Hamburgo.

Espanha

O encerramento dos Consulados de Portugal em Sevilha, Vigo e Bilbao e a sua transformação em Consulados Honorários parece-nos ser um grande erro.

Estamos aqui perante situações em que os Consulados de Portugal não servem tanto para praticar os actos consulares habituais, mas deviam ter funções mais desenvolvidas no que diz respeito à intervenção nos casos de problemas laborais.

A região do País Basco espanhol tem sido confrontada com sérios problemas de exploração de Portugueses, é actualmente destino de muitos dos nossos compatriotas (este é um dos destinos dos novos fluxos migratórios) e é aqui que são necessários apoios específicos.

É aqui que se encerram os postos consulares? É esta a resposta que Portugal dá aos problemas que têm surgido com os Portugueses nesta região? Prefere deixar os Cônsules Honorários resolver este tipo de problemas, ou coloca naquela região técnicos especializados para responder aos novos problemas que ali surgem?

França

Com o encerramento de seis Consulados, a França é o país que mais sofre com este plano de reestruturação consular. Já no anterior plano de reestruturação executado pelo anterior Governo, foram encerrados os Consulados de Nancy, Reims, Rouen e Bayonne.

Esta decisão é contraditória pois o número de Portugueses em França não foi reduzido (pelo contrário continuam a chegar a este país novos emigrantes) e continua a ser necessário recorrer aos Consulados: para emissão de Bilhetes de Identidade (que passou a ser também o documento de identificação naquele país para qualquer Português), para procurações e outros actos consulares.

O Governo não pode encerrar Consulados em regiões de grande desenvolvimento económico e que podem ser fundamentais para Portugal. Toulouse é hoje o principal pólo tecnológico da Europa e Lille é uma das regiões de França em franco desenvolvimento empresarial. Ora, é nestas duas cidades que o Governo decide encerrar Consulados.

Em França existem 40.000 empresas portuguesas. Ainda recentemente o Senhor Primeiro-Ministro reuniu com empresários Portugueses em Paris. Ora, o Governo propõe-se encerrar Consulados nas áreas onde há mais concentração de empresas portuguesas: Toulouse tem mais de 2.500 empresas de Portugueses, Tours tem 1800, Orléans tem 1029 e Lille tem 860. Não nos parece pois coerente a decisão do Governo.

Nas regiões onde o Governo tenciona agora encerrar postos consulares há dinâmicas que só existem porque havia um Consulado de Portugal: o movimento associativo é forte, há rádios portuguesas e o poder político local reconhece a importância da Comunidade.

Nas últimas eleições presidenciais a abstenção dos Portugueses da antiga área consular de Bayonne (Consulado encerrado em 2003) foi de 100%, enquanto que nas eleições anteriores houve uma participação de algumas centenas de votantes. Por outro lado, no Consulado de Portugal em Orléans houve a maior participação em França para as últimas eleições. É isto que se pretende destruir.

Por mais perto que possam estar de Paris, os Portugueses que residem nas actuais áreas consulares de Orléans, de Tours e de Lille, teriam de se deslocar centenas de quilómetros para se deslocar ao Consulado mais próximo. Ora, mesmo se as redes rodoviárias são boas, a maior preocupação dos Portugueses é como entrar na grande metrópole parisiense e “descobrir” o Consulado de Paris.

Por outro lado, na nossa opinião, a criação de um grande Consulado em Paris não é viável sem que se guardem serviços de atendimento que evitem que todos os utentes se desloquem à capital francesa. A nosso ver o encerramento de cinco postos consulares e o envio de todos os utentes para Paris, é uma experiência demasiado perigosa para ser feita em tão poucos meses.

Versalhes e Nogent são dois Consulados enormes. Nogent deve ser o maior Consulado do mundo com mais de 160.000 inscritos. Não se podem encerrar de repente estes dois Consulados, sem causar graves perturbações no atendimento ao público.

No entanto, o CCP já tinha apresentado ao Senhor Secretário de Estado uma proposta ousada de reestruturação da rede de Consulados em França.

A Secção de França do Conselho das Comunidades Portuguesas propõe uma rede de cinco Consulados-Gerais em França: Paris, Estrasburgo, Bordéus, Lyon e Marselha (em vez dos 17 Consulados que já teve) que deveriam ser prolongados por um serviço de atendimento consular de proximidade e em rede. Essa extensão seria efectiva, não pela abertura ou manutenção de Consulados Honorários, mas através da existência de estruturas consulares satélites, obrigatoriamente com Vice-Cônsules.

Este quadro pressupõe a conservação das actuais estruturas consulares e a abertura de outras:

O Consulado-Geral de Paris quer super visionar as estruturas consulares de Nogent, Versalhes, Lille, Orléans, Tours, Nantes, Rouen e uma outra em Reims.

O Consulado-Geral de Estrasburgo super visionar uma estrutura consular em Nancy.

O Consulado-Geral de Lyon super visionar a estrutura consular de Clermont-Ferrand e uma outra em Dijon.

O Consulado-Geral de Marselha continuaria a super visionar a estrutura consular da Corsega.

O Consulado-Geral de Bordéus super visaria a estrutura consular de Toulouse e uma outra em Pau.

Holanda

O Conselho das Comunidades Portuguesas não se opõe à transformação do Consulado-Geral de Portugal em Roterdão, numa Secção Consular na Embaixada de Portugal em Haia.

Aliás, o Conselheiro das Comunidades eleito na Holanda já tinha feito esta proposta, integando também o ICEP, nesta «fusão». Com efeito, parece-nos ser mais lógico (como aliás acontece noutros países) que o ICEP partilhe as mesmas instalações.

No entanto, chamamos a atenção para as consequências práticas desta alteração na Holanda: conhecendo as instalações, a nossa Embaixada de Portugal apenas pode acolher a Secção consular se mudar de instalações e nunca naquelas que ocupa actualmente.

Itália

Não nos chegou qualquer comentário sobre o encerramento do Consulado-Geral de Portugal em Milão, nem sobre a sua transformação em Consulado Honorário.

Suíça

Curiosamente, a Suíça, um dos destinos dos novos fluxos migratórios não foi contem no plano de reestruturação consular.

Ora, o Conselho das Comunidades estava à espera que as muitas promessas de abertura de um posto consular no Ticinio fossem agora cumpridas. Mas a população portuguesa que reside naquela zona montanhosa, de difícil acesso, continua a ser esquecida nos planos de reestruturação da rede consular.

Reino Unido

Curiosamente, também o Reino Unido, o principal destino actual dos novos fluxos migratórios não foram conte no plano de reestruturação consular.

O Conselho das Comunidades sugere a abertura de Escritórios consulares em Norfolk e nas zonas norte e sul de Londres.

Estados Unidos da América

Não nos parece judicioso o encerramento do Consulado de Portugal em Nova Iorque. Esta é uma das cidades mais importantes do mundo, um ponto de passagem e de residência de muitos Portugueses. Encerrar este Consulado parece ser uma decisão grave. Portugal passaria a ser o único país da União Europeia a não ter representação consular em Nova Iorque e deve ser aquele que mais Portugueses tem na região.

No entanto, o Conselho das Comunidades sugere que, por razões económicas, se mude o posto consular e a residência do Cônsul, de uma das zonas mais caras da cidade, para outras instalações.

Por outro lado, o encerramento dos Consulados de Portugal em New Bedford e em Providence, em zonas de grande concentração de Portugueses (mais de 10% da população dos Estados), são um erro. Tanto mais que Providencie é capital de Estado. Tirar o serviço de proximidade nestas regiões traria muitos incómodos aos Portugueses que aqui residem. É uma zona de grande concentração, com bastantes organizações e uma classe política ascendente que importa não «cortar» de Portugal.

No entanto, dada a proximidade dos Consulados de Boston, New Bedford e Providencie, o Conselho das Comunidades é da opinião que podem ser encontrados mecanismos de comunicação e de rentabilidade dos três postos consulares.

Por outro lado, há muitos anos que o Conselho das Comunidades tem vindo a solicitar a abertura de um posto consular na Califórnia. Os Conselheiros estão disponíveis para reunir com o Senhor Secretário de Estado e escolher a região onde este Consulado poderia ser aberto.

Por fim, o Conselho das Comunidades também tem vindo a alertar o Governo para as existências de novos fluxos migratórios transversais da Comunidade portuguesa residente nos Estados Unidos, para a Flórida. Impõe-se a abertura de um posto consular nesta região para onde se têm ido instalar muitos Portugueses, nomeadamente na zona de Orlando.

Bermudas

O Governo não pode extinguir o Consulado de Portugal em Hamilton e substitui-lo por um Consulado honorário. Tem de manter o posto consular existente e reforçá-lo, já que o Consulado honorário não pode realizar todos os actos consulares de que necessitam os mais de 6.000 Portugueses que residem nas Bermudas. São Portugueses maioritariamente originários dos Açores, sem estatuto de imigração, tendo apenas contratos de trabalho a termo certo.

É certo que o actual Consulado de Portugal em Hamilton não pode continuar a ter apenas um funcionário. Tem de ter pelo menos dois, um dos quais Vice-Cônsul, para poder ser completamente autónomo e realizar todos os actos consulares que os Portugueses da ilha necessitam.

Brasil

O Conselho das Comunidades Portuguesas não pode concordar com uma proposta que pretende deixar mais da metade do Brasil, sem qualquer Consulado de carreira, numa altura em que a realidade cultural e económica dos dois países tende a encontrar-se. É um contra senso que não conseguimos compreender.

Retirar os Cônsules de Portugal nas cidades de Belém, Recife, Porto Alegre e Curitiba, parece-nos um contra senso, num país com dimensão continental e numa altura em que é fundamental desenvolver as relações entre os dois países.

A extinção do Consulado de Portugal em Santos é, para nós, uma medida drástica, injusta e punitiva a toda uma Comunidade de 30.000 portugueses inscritos e cerca de 90.000 luso-descendentes.

O número de actos consulares praticados é de aproximadamente 12.000 ano. É pois um dos mais importantes no Brasil. Nesta área consular 80% dos empresários da construção civil são Portugueses, assim como 70% dos empresários da indústria de panificação, 30% do comércio varejista, 30% no ramo hoteleiro, bares, restaurantes e açougues.

Para além de existirem 17 associações portuguesas, algumas seculares, Santos situa-se junto ao principal porto da América Latina e ao pólo industrial de Cubatão e, proporcionalmente ao número de habitantes, é considerada a «Cidade mais portuguesa do Mundo». O próprio Consulado tem mais de 150 anos.

Os cerca de 100 Kms que distam Santos da cidade de São Paulo tornam-se longos devido ao forte trânsito entre a entrada de São Paulo (metrópole com cerca de 17 milhões de habitantes) e o Consulado de Portugal. E se é «infernal» para quem vai de carro próprio, torna-se tarefa quase impossível para quem tiver de utilizar os transportes públicos (sobretudo para quem vem de algum dos 28 municípios da actual área consular de Santos que diste mais de 250 km).

A importância de Santos é incontestável: os dois principais candidatos à última eleição Presidencial foram lá fazer campanha.

O Conselho das Comunidades consideram no entanto que o posto consular de Santos, pode passar a ser dependência do Consulado de São Paulo, desde que mantenha um Vice-Cônsul.

Venezuela

A Secção da Venezuela do Conselho das Comunidades tem vindo a solicitar a abertura de Consulados Honorários em Porto Ordas, Estado de Vargas e Ilha de Aruba. É pena que também estas solicitações não tenham sido contempladas por este plano de reestruturação consular.

África do Sul

O encerramento do Consulado de Portugal em Durban e a sua transformação em Consulado Honorário não poder ser aceite pela Comunidade portuguesa da Província do Kwazulu Natal que tem cerca de 12.000 pessoas.

Por um lado porque o Consulado Honorário não responde às necessidades da Comunidade e porque a região é estratégica pela proximidade com Moçambique.

Para além disso, tem um dinamismo particular com escolas, associações e uma relação com a sociedade local que não pode ser quebrada, fundamentalmente do ponto de vista histórico.

Quase todos os países da União europeia estão diplomaticamente representados em Durban, mas evidentemente nenhum tem uma Comunidade tão grande como a portuguesa.

De salientar ainda que o próximo Mundial de futebol de 2010 se realiza na África do Sul.

Namíbia

A transformação do Escritório consular de Windhoek em Consulado honorário não corresponde às necessidades da Comunidade portuguesa. Por um lado continua a aí haver uma presença portuguesa e por outro continua a ser necessário recorrer ao Consulado.

Actualmente o Escritório consular funciona com dois funcionários, mas não tem postos de chefia (Vice-Cônsul ou Chanceler) pelo que os documentos seguem para assinatura no Consulado de Portugal em Joanesburgo.

As queixas que se fazem sentir agora, serão agravadas com a solução proposta pelo Governo, enquanto que se esperava que o Governo resolvesse o problema com a nomeação de um posto de chefia e com uma maior articulação com o Consulado de Portugal em Joanesburgo.

Para fazer economias, o Governo pode vender a actual vivenda onde está instalado o Escritório consular (a antiga residência da Embaixada que também já encerrou), numa zona residencial privilegiada, mas num bairro fora da cidade, com salões, piscina, jardins e apartamentos, e passar para escritórios mais adequados à dimensão actual da representação portuguesa.



sábado, 26 de maio de 2007

Mais um escândalo que envergonha os Portugueses O empresário em causa é um dos grandes financiadores do PS no Brasil, tendo alegadamente pago a campa


FURACÃO BRASIL – António Braga afirma não conhecer os detidos

O empresário em causa é um dos grandes financiadores do PS no Brasil, tendo alegadamente pago a campanha eleitoral do candidato Aníbal Araújo (candidato do PS fora da Europa) nas últimas eleições de 2005

"Não conheço nenhum dos protagonistas nem nunca tive nenhuma relação a qualquer nível com as pessoas referidas, por isso não tem nenhum sentido a notícia do Expresso". - Foi nestes termos que o Secretário de Estado das Comunidades, António Braga se demarcou das notícias vindas a público e que de certa forma o relacionam com o caso.

Recorde-se que António Braga há um ano atrás nomeou Cônsul Honorário em Cabo Frio (Brasil) um empresário português agora detido no Rio de Janeiro e que alegadamente pertenceria a uma rede que comprava facilidades judiciais e políticas para investimentos na área do jogo. O referido empresário não chegaria contudo a assumir funções porque a sua nomeação foi travada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português, como esta semana referiu o Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira.

Portugueses presos no Rio citam ligação com António Braga O secretário de Estado das Comunidades portuguesas membro do governo de José Sócrates

O secretário de Estado das Comunidades, António Braga, foi citado por um dos empresários portugueses detidos no Rio de Janeiro, no âmbito da ‘Operação Furacão, que desmantelou uma rede de branqueamento de capitais, conforme anunciou o “Expresso on-line”. Fonte da secretaria de Estado disse que António Braga conhecia Licínio Soares Bastos (um dos detidos) de quem tinha as “melhores referências”.

Jaime Garcia Dias, advogado e um dos detidos pela Polícia Federal (PF) brasileira no caso da "máfia das sentenças", foi escutado a conversar com o pai, dizendo a este que o secretário António Braga poderia ser um contacto para desembargar uma obra em Portugal.

Na conversa, que consta do relatório da PF a que o jornal “Expresso” teve acesso, foi feita uma referência a um presidente de câmara socialista da região de Braga. No processo foram detidos dois portugueses: Laurentino Santos e Licínio Soares Bastos, nomeado, em 2006, Cônsul Honorário em Cabo Frio (onde reside um número insignificante de portugueses, não justificando a implementação de serviços diplomáticos).

O Jornal “Público” divulgou em 5 de Maio que o PSD deve exigir esclarecimentos por parte do PS “com urgência”, sobre as ligações dos socialistas aos detidos no Rio. O grupo é acusado de, a partir do Brasil, negociar sentenças judiciais e decisões políticas para beneficiar casas de bingo e de máquinas de jogos de azar.

Segundo as investigações, o português Licínio Soares Bastos, é um dos maiores financiadores do PS no Brasil e suportou grande parte das despesas da campanha do candidato socialista ao círculo fora da Europa nas legislativas de 2005, Aníbal Araújo.

Licínio é também proprietário do imóvel onde está instalada a sede do PS na Barra da Tijuca (RJ). O empresário viria a ser nomeado cônsul honorário de Portugal em Cabo Frio, um ano depois de José Sócrates chegar ao poder, mas o processo nunca chegou a ser formalizado junto do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

A Polícia Federal (PF) brasileira suspeita que o português fosse o intermediário do grupo nas negociações para abrir casinos em Portugal e no Brasil. Numa das escutas anexadas ao processo, outro detido, o advogado e empresário Jaime Garcia Dias, admitia ao vice-presidente da Associação dos Bingos do Rio de Janeiro, José Renato Granado, que estava em Portugal reunido com deputados e que as despesas da estadia estavam a ser suportadas “pelo presidente da câmara”. Na transcrição da escuta, o empresário brasileiro nunca revelava o nome ou o partido dos deputados e do autarca.

José Cesário, deputado do PSD e antigo secretário de Estado das Comunidades, disse que o PS e o Governo têm de “clarificar esta situação com urgência”, referindo que é o nome de Portugal e das comunidades portuguesas “que está em risco”.

Licínio Soares Bastos é natural de Oliveira de Azeméis, de onde é também oriundo o candidato do PS ao círculo de fora da Europa em 2005, Aníbal Araújo. O primeiro é fundador de alguns dos jornais administrados por Aníbal Araújo. “É um benemérito que muito ajuda a comunidade portuguesa, não há qualquer promiscuidade”, enfatiza Araújo.

Antes das legislativas de 2005, a confusão instalou-se na secção do PS no Rio de Janeiro, sem se saber quem dirigia esta estrutura. Terá sido por essa altura que se tornaram públicas as relações entre Aníbal Araújo e Licínio Bastos - alguns elementos do PS defendem que o empresário brasileiro impôs o nome do futuro candidato. “Foi então que o Sr. Licínio disse que foi contactado pela direcção do PS para ajudar o partido. Aí, criou a sede e pagou a campanha de Aníbal Araújo”, disse ao jornal “PÚBLICO” Eduardo Neves Moreira, ex-deputado do PSD para o círculo fora da Europa e residente no Rio de Janeiro.

A ostentação da campanha motivou uma queixa do PSD à Comissão Nacional de Eleições, apresentada a 20 de Abril de 2005. “Utilizaram aviões, cartazes em autocarros [ônibus], programas de rádio e televisão aqui no Brasil. É óbvio quem suportou tudo isso”, expõe o social-democrata. “Eu desconheço se o Sr. Licínio, de quem sou amigo, financiou ou não a minha campanha”, contrapôs Aníbal Araújo.

O deputado José Lello, antigo secretário de Estado e responsável pela área das Comunidades Portuguesas do PS, também alega desconhecer a origem do financiamento. “Isso é da responsabilidade do candidato. Conheci Licínio Soares Bastos durante essa campanha, foi-me apresentado por Aníbal Araújo. Não sei se foi ele o financiador”, afirmou, argumentando também ignorar que a sede do PS no Rio funciona em instalações do empresário agora detido.

O actual responsável pelo departamento de Relações Internacionais e Comunidades Portuguesas do PS, Luís Pisco, admite e desvaloriza o fato de a sede do PS no Rio de Janeiro estar instalada numa propriedade de Licínio Bastos. “É normal isso acontecer, ele quis ajudar o partido. Posso garantir que as reuniões políticas do partido se realizam noutro lugar”, frisou. Pisco não soube, no entanto, identificar os actuais dirigentes socialistas no Rio de Janeiro.

Colocando a tónica na sede do partido e na “generosidade” do empresário agora detido, o social-democrata Eduardo Moreira recorda conversas antigas. “Eu não sei se há promiscuidade ou não, sei é que o Sr. Licínio dizia que o apoio ao PS lhe renderia contrapartidas comerciais em Portugal”, sublinhou.

Um ano depois de o PS chegar ao poder, Licínio Soares Santos foi nomeado cônsul honorário de Portugal em Cabo Frio, a 150 quilómetros do Rio de Janeiro. A nomeação, despachada pelo secretário de Estado das Comunidades, António Braga, foi publicada no Diário da República dia 16 de Maio de 2006, mas foi suspensa meses depois quando se constatou que Licínio Bastos vinha sendo investigado pelas autoridades brasileiras. A secretaria de Estado justificou a suspensão pela disponibilidade manifestada por Licínio Bastos para suportar todas as despesas do posto consular. “O Estado português não teria qualquer despesa com esse consulado, Licínio Bastos ofereceu-se para suportar todo o investimento para ajudar a comunidade portuguesa, ele é um benemérito e até ser condenado merece a presunção de inocência”, explicou ao “PÚBLICO” Eduardo Saraiva, assessor de imprensa do secretário de Estado das Comunidades, António Braga. Um argumento que não colhe, pelo menos junto de Eduardo Moreira, que também já presidiu o Conselho das Comunidades Portuguesas no Rio de Janeiro. “Em Cabo Frio residem no máximo 20 portugueses, não faz sentido abrir aí um consulado e encerrar o de Santos, onde habitam cerca de 15 mil pessoas [na verdade passam de 30 mil] com ligações a Portugal”, disse.

Na Bahia, a jornalista Eulália Moreno lembrou que o jornal “O Globo”, do Rio de Janeiro, fez questão de referir que ambos os acusados [Laurentino e Licínio], eram financiadores do Partido Socialista no Brasil, no entanto o secretário nada sabe. “E o ‘Braguinha’ também não sabe que está com a sua presença prestigiando um encontro da dita Imprensa Regional organizado pelo ‘medalhudo’ Aníbal Araújo, de Oliveira de Azeméis, a mesma terra dos detidos? E ele também não sabe que aqui em Salvador os jornalistas idóneos presentes estão cansados de saber que este encontro foi patrocinado pelos manos, hoje detidos?”, interpela a jornalista.

Eulália ainda garantiu que o “Expresso” está vasculhando mais informações e completa: “o José Cesário que não se fique a rir porque a hora dele também está chegando”. “E por onde andará o Eduardo [?], o director do Primeiro de Janeiro que era o que mais se governava com a imprensa dita regional já que nas gráficas de sua propriedade eram impressos milhares de jornalecos folha de couve e paroquiais que se governavam com o ‘porte pago’ forjando tiragens que nunca tiveram? Esse era do PSD, mas transitava por todos os partidos. Até conseguiu um terreno magnífico na Boa Vista, da cidade do Porto, alegando que ali seria construída a sede do Primeiro de Janeiro, o jornaleco que nunca pagou aos seus profissionais da informação”, denuncia Eulália.

Ainda de Salvador, Eulália disse ter-se encontrado com várias “personalidades” e, segundo ela, a maioria delas com ar de “não me comprometa”. A jornalista diz ainda que, “em declarações ao jornalista da Lusa que também está aqui à custa do contribuinte português, o secretário das Comunidades, António Braga, à boa maneira do que se diz no Minho, de onde é originário, ‘fugiu com o rabo à seringa quando foi interpelado acerca do processo da ‘Máfia das Sentenças. Ai, ai, ai que isto ainda vai parar no escândalo do ‘BragaParques’, passando pelos financiadores do Partido Socialista no Brasil, os manos Licínio e Laurentino que se encontram devidamente encarcerados no Rio de Janeiro acusados de envolvimento nos negócios dos bingos”. E encerra seu comentário com ironia: “Abraço, do Congresso Faz de Conta da UNIR, em São Salvador, Bahia, Eulália Moreno”.

A Agência Lusa por sua vez publicou em 4 de Maio que o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, António Braga, “não conhece” os portugueses supostamente envolvidos no esquema de venda de sentenças judiciais desbaratado pela Polícia Federal na Operação Hurricane. Segundo a Lusa, Braga assegurou não ter “qualquer relação” com as acusações que são feitas pelo semanário português “Expresso”.

“Não conheço nenhum desses protagonistas. Nunca tive nenhuma relação, a qualquer nível, com as referências que são feitas. Portanto, fico deveras admirado”, disse à Agência Lusa António Braga, que se encontra em visita ao Brasil, em Salvador.

O secretário, um dos três vice – ministros das Relações Exteriores de Portugal, ressaltou que a notícia da versão on-line do Expresso “não tem nenhum sentido”, acrescentando que já fez as mesmas declarações ao próprio Expresso. A Operação Hurricane, deflagrada no último dia 13, levou à prisão vários juízes, advogados e empresários, entre os quais os portugueses Licínio Bastos e Laurentino dos Santos, pelos motivos já expostos.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Investigação do desaparecimento da crinaça inglesa pode estar a chegar ao fim Artigo de Opinião de Diana Karina


Por volta das 18H45 os pais que estavam na Policia Judiciária a ser ouvidos sairam juntamente com os avós e um outro casal não identificado. Em declarações públicas a polícia eliminou qualquer suspeita sobre os pais ou qualquer dos casais que estiveram a ser ouvidos esta tarde. Apesar de não terem sido feitas muitas declarações a juduciária sempe afimou que a investigação entrou na sua fase conclusiva.

Entretanto esta tarde surgiu uma nova pista que leva até Espanha e uma informação não confirmada garantia até que uma localidade espanhola entre Sevilha e Huelva estaria inclusivamente cercada pela polícia
- Por volta das 13H30 de hoje os pais da menina foram levados pela judiciária da casa onde se encontravam para Portimão para virem a ser de novo interrogados pela polícia. Fontes não identificadas garantiram entretanto que a polícia já pode estar em posse de um pedido de resgate...
- Mais de 100 pessoas assistiram hoje de manhã, emocionadas, a uma missa anglicana, realizada na igreja católica da Praia da Luz e dita em inglês por três padres, onde se solidarizaram com a família McCann rezando e pedindo a Deus para que se encontre Madeleine, desaparecida há sete dias.
Com a fotografia de Madeleine fixada junto à imagem de Nossa Senhora de Fátima e uma vela acesa de mais de 50 centímetros de altura, os crentes chorosos pediram luz e entregaram as suas orações à família McCann. A mãe de Madeleine, Kate McCann, esteve sentada na primeira fila da igreja, a assistir à cerimónia religiosa amparada por uma amiga, e foi a primeira a comungar, sempre agarrada ao pequeno peluche cor-de-rosa de Madeleine.
O padre José Pacheco, pároco da igreja católica da Praia da Luz, disse entretanto à agência Lusa que no sábado, dia em que Madeleine faz quatro anos, haverá uma missa católica, em português, e sexta-feira, a partir das 21 horas, decorrerá uma vigília de esperança junto ao templo. Nessa ocasião, o padre pede que os fiéis levem um objecto ou peça de roupa de cor verde, para simbolizar a esperança no regresso de Madeleine.

9 Maio (quarta-feira)

- A dona de um estabelecimento junto ao aldeamento turístico de onde desapareceu a menina inglesa denunciou às autoridades movimentos suspeitos de uma viatura, entre as 22h30 e as 23 horas daquele dia, que já avistara na Marina de Lagos. Fonte próxima das investigações disse à agência Lusa que a mulher avistou "um carro com três ou quatro homens" na zona daquele aldeamento turístico, na Praia da Luz, perto de Lagos, mas só após a notícia do desaparecimento da menina Madeleine McCann contactou as autoridades.

Sexta-feira de manhã, 4 de Maio

, a mulher dirigiu-se ao posto da GNR de Lagos, onde lhe terá sido dito que não havia tempo para a receber, mas mais tarde acabou por ser ouvida pelos investigadores. De acordo com a testemunha, tratava-se do mesmo carro e indivíduos que vira a circular na Marina de Lagos dias antes, numa movimentação que já na altura achou "esquisita". Contactada pela Lusa no estabelecimento comercial, situado a uma centena de metros do quarto de onde Madeleine desapareceu, a mulher confirmou ter sido ouvida pela Polícia, mas não confirmou nem desmentiu os acontecimentos, remetendo-se ao silêncio.
Na zona, o dia de hoje foi agitado pela entrega às autoridades de uma peça de roupa infantil com um bilhete, cujo conteúdo se desconhece. A peça de roupa, entregue pouco antes das 14 horas pelo ocupante de uma carrinha, poderá ser um babete ou uma blusa tipo 'top', de cor verde. O homem parou bruscamente a viatura, junto ao sítio onde estão os jornalistas, e entregou a peça a um militar da GNR, que a transportou para o posto móvel, situado frente ao bloco de apartamentos. Desvalorizando a entrega, fonte da GNR disse à Lusa que aquele tipo de achados tem sido muito frequente nos últimos dias, estando as autoridades a analisar diversos objectos relacionados com crianças.
- Cerca de 150 pessoas retomaram as buscas por Madeleine, disse à Lusa o tenente-coronel Costa Cabral, das Relações Públicas da GNR. As buscas concentraram-se nas zonas já anteriormente batidas. Entre estas pessoas estão 12 homens com cães de busca e salvamento, 12 bombeiros, com dois veículos, nove elementos da Protecção Civil com três veículos, dezenas de militares da GNR, e algumas dezenas de inspectores da Judiciária, revelou o responsável.
Até ao fim da manhã, não tinha sido pedido qualquer helicóptero para auxiliar nas buscas, adiantou ainda à Lusa fonte do Comando Distrital do Operação de Socorros (CDOS).
- A imprensa britânica noticia que dias antes do rapto de Madeleine McCann, foi avistado um homem a vaguear perto do quarto de onde veio a desaparecer. O The Sun afirma que o homem foi avistado a mexer nas persianas do quarto da criança e a agarrar um carrinho de bebé e que terá fugido quando confrontado por uma funcionária do complexo turístico. Esta funcionária descreveu o homem como "esquisito", de meia-idade, pele escura e barba por fazer. O Times online noticia que a policia portuguesa elaborou o retrato de um homem inglês que pretende interrogar e que consiste num homem branco, com 1,70 metros, com idade entre os 35 e os 40 anos, com cabelo curto e preto.
- O presidente do Sindicato Nacional de Polícia (SINAPOL) insurgiu-se contra as críticas que a imprensa britânica tem feito à actuação das autoridades portuguesas no caso de Madeleine McCann, defendendo que a PJ é das melhores do mundo.
A imprensa inglesa tem vindo a acusar recorrentemente as polícias portuguesas pela forma como estão a conduzir a investigação e pela falta de informação disponibilizada aos jornalistas. São "acusações infundadas", considera o sindicalista, contrapondo que "desaparecem crianças em Inglaterra que nunca mais são encontradas".
"Os polícias portugueses estão a fazer um grande esforço (...). Sei de colegas que se voluntariaram para ir trabalhar em dias de folga" e participar na operação montada para encontrar a pequena turista inglesa, disse Na sua opinião, a atitude crítica dos jornalistas britânicos que estão a acompanhar o caso indica que querem "arranjar um bode expiatório" para o facto de a criança não aparecer. "Nós não somos responsáveis pela situação criada", acentuou Armando Ferreira.

8 Maio (terça-feira)

- A Polícia Judiciária (PJ) revelou que existem linhas de investigação que podem conduzir à determinação do móbil do alegado crime, permitindo a concentração e centralização dos esforços das autoridades policiais.
Em comunicado, a PJ explica que, "dos vastos elementos já recolhidos pela investigação, e que são muitos, é agora possível afirmar que foram despistadas e abandonadas diferentes hipóteses de investigação, uma vez que lhes foi retirada consistência".
No entanto, a PJ enfatiza que "permanecem abertas e em franco desenvolvimento outras hipóteses de investigação, que podem conduzir à determinação do móbil da ocorrência".
"Com base em dados que apontam para o cometimento de um crime grave, a PJ mantém envolvidos na investigação todos os meios necessários e adequados para o esclarecimento do caso", diz a nota. Entre outras hipóteses, a Polícia Judiciária coloca a de rapto.

7 Maio (segunda-feira)

- O criminalista Barra da Costa afirmou ter informações de que o sequestrador da menina britânica Madeleine McCann poderá ser um cidadão inglês.
Em declarações à agência Lusa, o ex-inspector chefe da Polícia Judiciária (PJ) disse ter indicações de que o "retrato falado" aponta para que o sequestrador seja um "homem alto, de cabelo curto", e que provavelmente foi visto, por detrás, naquela zona há alguns dias.
- As autoridades alargaram para 15 quilómetros o raio das buscas em torno do apartamento do qual desapareceu quinta-feira a menina inglesa Madeleine, com 60 efectivos aos quais se juntaram 30 populares.
A procura foi estendida a várias zonas do concelho de Vila do Bispo e à Barragem da Bravura.

Pensafrim, Espinhaço de Cão, Budens e Espiche são algumas das povoações que foram inspeccionadas por militares da GNR, elementos da Protecção Civil e bombeiros.
As zonas rurais de Colinas Verdes e Sargaçal estão a ser percorridas por homens e cães das patrulhas de busca e salvamento da GNR chegadas de Lisboa.
- A mãe da criança inglesa apelou novamente à pessoa "que está ou esteve" com a filha para que não lhe faça mal e para que a deixe voltar para a família.
- A Polícia Judiciária (PJ) anunciou que as investigações sobre o desaparecimento de Madeleine McCann "têm permitido a recolha de dados e informações que podem vir a revestir relevante interesse", mas escusou mais pormenores.
A Judiciária diz que "as autoridades nacionais têm contado com a permanente colaboração das autoridades policiais estrangeiras congéneres e ainda a INTERPOL e da EUROPOL".

6 Maio (domingo)
- O jornal britânico Daily Mail noticia que um amigo da mãe de Madeleine ofereceu uma recompensa de 100.000 libras (cerca de 147.000 euros) para informações acerca do aradeiro da menina.
- Um inspector do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) afirmou à Lusa que uma eventual fuga do país é "impossível" de evitar, nomeadamente porque há rios fronteiriços que se atravessam facilmente de barco.
- O presidente da Câmara Municipal de Lagos, Júlio Barroso, disse que as buscas para encontrar a menina estenderam-se às freguesias vizinhas e à Mata de Barão de São João.
- Os pais da pequena Maddie fazem a sua terceira declaração pública desde o desaparecimento da filha, agradecendo o apoio da população da Praia da Luz e pedindo que continuem a rezar pela criança.
- A GNR justificou que a fronteira do Guadiana não tem controlo 24 horas por dia, porque isso "seria contraproducente para o sucesso da eventual captura de um suspeito".
- Mais de 60 horas após a menina britânica Madeleine ter desaparecido as autoridades policiais prosseguem as buscas incessantemente, mas remetendo-se ao silêncio quanto aos resultados da investigação.
- A pacata vila da Praia da Luz, escolha turística de eleição dos britânicos, transformou-se nas últimas 72 horas na capital mediática do Reino Unido, com a chegada de dezenas de repórteres e de um "batalhão" de meios pouco usuais em Portugal.

5 Maio (Sábado)

- As buscas para encontrar Madeleine McCann prosseguiram durante toda a noite ao longo das bermas das estradas, incluindo a que liga a Estrada Nacional 125 (EN 125) à Praia da Luz, Lagos.
- O governador civil de Faro garantiu que as forças de segurança trabalham "em coordenação absoluta" e estão "altamente empenhadas" em encontrar a criança.
- às 12:00 de sábado o director nacional adjunto e responsável pela directoria de Faro da PJ, Guilhermino Encarnação, disse estar em situação de assegurar que a criança terá sido raptada.
Segundo este responsável, todos os caminhos apontam para um crime de rapto da criança e que já existe um "esboço" de um eventual suspeito.
Em conferência de imprensa, o responsável adiantou que a polícia "tem elementos que asseguram o rapto", acrescentando que este tipo de crime não é só para pedido de resgate, mas inclui também a prática sexual.
Esta foi a primeira declaração oficial da Polícia Judiciária desde o desaparecimento de Madeleine.
- O raio de acção da polícia foi alargado, para aproximadamente três quilómetros e a Polícia Judiciaria começa a trabalhar com a Europol, Interpol, Polícia Britânica e outras entidades europeias que dispõem de elementos que podem ajudar a detectar a criança.
- O embaixador britânico em Portugal informou que chegaram ao Algarve três polícias britânicos para participar nas investigações.
- Inúmeros populares, muitos dos quais cidadãos britânicos residentes na zona, colaboram na procura.
- As investigações estendem-se à orla costeira, tendo a polícia marítima disponibilizado uma lancha e cinco homens para patrulhamento das praias e falésias da zona
- Dezenas de agentes da Polícia Judiciária inspeccionam as casas vizinhas do bloco de apartamentos.
Munidos de plantas da zona, os agentes passam "a pente fino" as redondezas do apartamento, na Praia da Luz, "batendo" as ruas, casas e jardins em redor do complexo Ocean Club.
- Nas estradas de acesso à Praia da Luz brigadas da GNR efectuam várias operações "stop".
- Uma lancha salva-vidas, com quatro homens da Polícia Marítima, patrulha a costa.
- A PJ de Faro marcou para as 20:00 uma conferência de imprensa destinada a fazer um novo ponto da situação, mas mais tarde anuncia o cancelamento do encontro com os jornalistas por não haver novos elementos a apresentar publicamente sobre as operações em curso.
- O pai da criança desaparecida voltou a apelar a quem disponha de informações para a localização da sua filha que o comunique às autoridades.

4 de Maio (sexta-feira)

As buscas da GNR tiveram o apoio da PSP de Lagos e Polícia Judiciária de Portimão, por não estar posta de lado a possibilidade de um rapto.
- A Embaixada Britânica entra em contacto com a família da menina desaparecida no Algarve e com as autoridades portuguesas.
- Os pais da menina inglesa suspeitam que a filha foi vítima de um rapto premeditado, devido à forma como os suspeitos terão entrado no apartamento - sem alertar os gémeos de dois anos - e por não terem levado bens materiais.
- Um amigo do casal afirmou que uma das pessoas no jantar terá visto, no decorrer da refeição, uma "pessoa suspeita" a carregar uma criança ao colo, embora na altura não tenha suspeitado de qualquer coisa estranha, uma vez que aquele é um espaço frequentado por várias famílias.
- Durante a tarde de sexta-feira as autoridades portuguesas decidem envolver um helicóptero da Protecção Civil nas buscas, juntando-se assim às dezenas de elementos no terreno, que incluem efectivos da GNR, agentes da Polícia Judiciária, equipas com cães e bombeiros. Também a Polícia Marítima deslocou para o local lanchas salva-vidas e elementos a pé.
- No mesmo dia os pais da menina inglesa, dois médicos, foram ouvidos pela PJ.
- O jornal britânico The Sun oferece uma recompensa de 15.000 euros a quem der informações sobre o paradeiro de Madeleine McCann.
- Os pais da menina inglesa fazem um primeiro apelo a quem a tenha levado que a deixe regressar para junto deles e afirmam que têm recebido todo o apoio das autoridades portuguesas desde que foi comunicado o desaparecimento de Madeleine.

3 Maio (quinta-feira)

- Uma menina britânica de três anos desapareceu de um complexo turístico na praia da Luz em Lagos, Algarve, enquanto dormia - juntamente com dois irmãos gémeos, de dois anos - e os pais jantavam fora com amigos, num restaurante a cerca de 50 metros do apartamento.
O desaparecimento terá ocorrido - segundo os pais - entre as 21:30 e as 22:00 do complexo Ocean Club, na praia da Luz, Lagos, numa das vezes em que os pais foram do restaurante ao apartamento para ver se estava tudo bem.
Os pais dizem ter dado o alerta pouco depois das 22:00 enquanto a GNR referiu ter sido avisada cerca das 23:50. Depois de alertada, a GNR enviou para o local uma equipa cinotécnica (homem/cão) na tentativa de localizar a criança.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Mundo - 1º De Maio - Artigo de Diana Carina


Em Portugal festeja-se livremente o 1º de Maio a partir da revolução de 1974.

No entanto, este festejo acontece de forma cada vez mais esmorecida, muito provavelmente porque as condições reais de vida e trabalho dos trabalhadores se modificaram radicalmente, as RELAÇÕES SINDICAIS com o patronato e o governo provaram-se igualmente CORROMPIDAS e transformadas em mero INSTRUMENTO INSTITUCIONAL DE NEGOCIAÇÃO e os novos problemas que surgiram com o avanço da política e ideologia do capitalismo e do liberalismo esperam ainda pela verbalização consciente dum novo equacionar das dificuldades, das modalidades da exploração e das contradições de interesses de classe.

Assembleia Libertária do Porto

1º De Maio. De memória sangrenta, comemora em primeiro lugar o dia 1 de Maio de 1886, quando se realizou uma manifestação sindical de centenas de milhares de trabalhadores nas ruas de Chicago, reivindicando a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias, o que deu início uma greve geral nos EUA. O dia 3 de Maio terminou com a morte de um dos manifestantes em confrontos com a polícia. A 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba por desconhecidos (que, veio a apurar-se depois, pertenciam à própria polícia) para o meio dos polícias que começavam a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. A polícia abriu então fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas, o que é hoje conhecido como a Revolta de Haymarket. Três anos mais tarde, a segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu escolher essa data para convocar uma manifestação anual com o objectivo de continuar a lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A 1 de Maio de 1891 uma manifestação no norte de França foi dispersada pela polícia, o que resultou na morte de dez manifestantes e serviu para reforçar o dia como um dia de luta dos trabalhadores. Alguns meses depois a Internacional Socialista de Bruxelas proclama esse dia como dia internacional de reivindicação de condições laborais.

A 23 de Abril de 1919 o senado francês ratifica o dia de 8 horas e proclama o dia 1 de Maio desse ano dia feriado. Em 1920 a Rússia adopta o 1º de Maio como feriado nacional, e este exemplo é seguido por muitos outros países.

Em Portugal festeja-se livremente o 1º de Maio a partir da revolução de 1974.

No entanto, este festejo acontece de forma cada vez mais esmorecida, muito provavelmente porque as condições reais de vida e trabalho dos trabalhadores se modificaram radicalmente, as RELAÇÕES SINDICAIS com o patronato e o governo provaram-se igualmente CORROMPIDAS e transformadas em mero INSTRUMENTO INSTITUCIONAL DE NEGOCIAÇÃO e os novos problemas que surgiram com o avanço da política e ideologia do capitalismo e do liberalismo esperam ainda pela verbalização consciente dum novo equacionar das dificuldades, das modalidades da exploração e das contradições de interesses de classe.

O Estado tem assumido a responsabilidade da oferta de educação em níveis aparentemente cada vez mais altos (o 9º ano, actualmente) e o objectivo primordial, conforme a lógica liberal, é “a tomada de consciência dos direitos e deveres sociais e o desenvolvimento da capacidade produtiva para apropriação e transformação da natureza em benefício de toda a população”.

No entanto, este facto é acompanhado de modelos de aprendizagem e avaliação que agudizam a EXCLUSÃO DO ENSINO, a triagem encapotada das elites e o avanço de apenas uns poucos, à partida privilegiados, para um ensino na pré-universidade e universidade caro e distintivo, reproduzindo o modelo social altamente hierarquizado a que conduz a dinâmica do desenvolvimento económico e a lei dos peixes sempre maiores comerem os menores porque se rege a profunda injustiça da nossa sociedade actual.

A mundialização ou GLOBALIZAÇÃO, selvaticamente imposta pelas grandes potências muito antes que as economias em vias de desenvolvimento dela pudessem retirar proveito, escravizando-as, consequentemente, é outra faceta desta mesma política e ideologia, que aparentemente confere as mesmas oportunidades de praticar o comércio livre a todas mas joga com cartas marcadas pelas vantagens à partida; e com um interesse unicamente pautado pela possibilidade de se encher à custa da derrota, do empenhamento e da miséria alheios.

Esta lógica de crescimento económico que tudo justifica, pondo, sem considerações éticas ou morais, o lucro e a recompensa material no investimento à frente dos custos da ANIQUILAÇÃO DOS MEIOS DE SUBSISTÊNCIA de terceiros, contaminou, pela corrupção dos agentes políticos pelos económicos, a própria ideologia e política do estado, que galopante mente substitui conceitos e revoga leis que garantiam direitos adquiridos mínimos e inalteráveis dos trabalhadores e da população em geral (como o DIREITO AO TRABALHO), privatizando serviços básicos essenciais tais como a saúde, a educação, os transportes e os serviços de água, saneamento e distribuição de energia.

O conceito, que evoluía no sentido de tornar universalmente consciente que a gratuidade é condição sine qua non para uma efectiva LIBERDADE na IGUALDADE DE OPORTUNIDADES E CONDIÇÕES, enquanto socialização de todos os bens e recursos produzidos colectivamente, é substituído pela LIBERALIDADE na COMERCIALIZAÇÃO de tudo. Devido a este significado político e ideológico, a GRATUIDADE é um CONCEITO ESSENCIAL nas lutas dos trabalhadores por melhores condições de vida.

Segundo os princípios de movimentos libertários e libertadores, a gratuidade caracteriza-se como sendo a (re) apropriação de bens e direitos, dos frutos do trabalho colectivo sobre bens essenciais comunais, tais como hospitais, escolas, universidades, estradas, caminhos-de-ferro, a água, o vento, o sol...

E só pode coexistir com a retomada do conceito da própria reapropriação pelo planeta de si mesmo, abusivamente tornado, no conjunto da sua DIVERSIDADE BIOLÓGICA, como FEUDO OU COUTADA de alguns seres humanos, que acham que podem explorar ou extinguir espécies e conspurcar o que é de todas e de ninguém a bel-prazer dos seus interesses económicos.

O modo de produção capitalista, cujo fundamento é a EXCLUSÃO crescente e a concentração da PROPRIEDADE nas mãos de cada vez menos, caracteriza a negação e a comercialização do acesso aos bens espirituais e materiais comunais, e um dos seus sintomas gritantes, que é preciso consciencializar e denunciar urgentemente na nossa sociedade, é a NEGAÇÃO DA GRATUIDADE como direito colectivo inalienável.

É preciso tornar visível o CRIMINOSO proceder das PATENTES sobre pensamentos, conhecimentos ancestrais, sementes, genes, etc., pertencentes a toda a gente e a ninguém, a introdução de PLANTAS TRANSGÉNICAS (cujos malefícios para a saúde estão provados) PATENTEADAS que polinizam as outras mas são pertença duma empresa que pode exigir pagamento pela contaminação, o que só pode conduzir ao estabelecer de relações comerciais escravizantes e a um NOVO FEUDALISMO.

Assim como é preciso cada vez mais tornar visível o criminoso paradoxo da tecnologia, que em princípio moral e eticamente evidente, nos deveria RESTITUIR COLECTIVAMENTE O TEMPO LIVRE, mas ao contrário, coloca a mais valia resultante do tempo poupado pelas máquinas a trabalhar para nós, nas mãos dos CADA VEZ MENOS DETENTORES DOS MEIOS DE PRODUÇÃO, aumentando o desemprego e, ao aumentar a PRECARIEDADE do emprego, sujeitar os trabalhadores a cada vez maiores jornadas de trabalho, a mobilidades geográficas que destroem a integração social e que conduzem à NOVA ESCRAVATURA.

Essa precariedade atinge em primeiro lugar as mulheres e, reduzindo-lhes a sua segurança e margem de manobra económica, fortalece as condições que perpetuam a dependência da família e a aceitação de JORNADAS DUPLAS de trabalho (com a acumulação do trabalho doméstico e dos filhos) e a permanência em situações insustentáveis de humilhação e VIOLÊNCIA, o recurso sistemático à dependência panorâmica de drogas barbitúricas para aguentar as desumanas condições de vida.

Ao vulgarizar a venda da imagem de indivíduos concretos como meio publicitário e ao liberalizar a venda do sexo transformando corpos em bens de consumo, o capitalismo cria ainda uma crescente ESCRAVATURA SEXUAL com milhões de crianças e mulheres envolvidas, o que evolui ainda dramaticamente no sentido de liberalizar-se e legalizar-se o proxenetismo.

Esta materialização radical do sentido da vida vinda dos agentes económicos de cima é acompanhada pela mais hipócrita das MEDIATIZAÇÕES DA IGREJA e da sua tradicional influência no manter duma mentalidade crucificada em DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA, cristalizadores da resignação sofredora e crítica das massas em baixo, agudizando-se a repressão sexual, a moral dupla e a comercialização encapotada tanto do sexo como da vida familiar.

Fica aquela pergunta que só nos pode remeter para a brutal tomada de consciência da dimensão da rapina a que estamos, como pessoas com direitos de decisão e cidadania, colectivamente sujeitas:

Se o estado não tem dinheiro para financiar a gratuidade da educação, da saúde, da água e luz, dos transportes e das comunicações, porque raio aumenta as verbas para os estádios de futebol, para o exército, a polícia e as despesas dos próprios políticos? Como se atreve a mandar GNR para o Iraque?

Façamos portanto do primeiro de Maio um dia de reflexão, reapropriação e luta. Não de festejo estéril de direitos adquiridos que não só nos são encapotada e descaradamente retirados como ainda se tornaram obsoletos pela evolução das condições reais tecnológicas. Lutemos pela reapropriação de todos os nossos direitos comunais, pela verdadeira igualdade de oportunidades, pela tomada da consciência da necessidade e do direito universal a estruturas libertárias organizadas desde a base, uma divisão justa do conhecimento e do poder de decisão que proteja e assegure a igualdade e a justiça social e ecológica.

2007-04-30

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segunda-feira, 23 de abril de 2007

OS COMUNICADOS DO 25 DE ABRIL (O M. F. A. ATRAVÉS DO RÁDIO CLUBE PORTUGUÊS) artigo de opiniao de Diana Karina


Antes das 4 horas

Aqui (Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.
Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica esperando a sua ocorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja,sinceramente,desnecessária.

Às 4,45 horas

A todos os elementos das forças militarizadas e policiais o comando do Movimento das Forças Armadas aconselha a máxima prudência, a fim de serem evitados quaisquer recontros perigosos.
Não há intenção deliberada de fazer correr sangue desnecessariamente, mas tal acontecerá caso alguma provocação se venha a verificar.
Apelamos para que regressem imediatamente aos seus quartéis, aguardando as ordens que lhes serão dadas pelo Movimento das Forças Armadas.
Serão severamente responsabilizados todos os comandos que tentarem, por qualquer forma, conduzir os seus subordinados à luta com as Forças Armadas.

Apelo às forças militarizadas

Aqui Posto de Comando das Forças Armadas. Informa-se a população de que, no sentido de evitar todo e qualquer incidente, ainda que involuntário, deverá recolher às suas casas, mantendo absoluta calma.
A todos os componentes das forças militarizadas, nomeadamente às forças da G. N. R., P. S. P. e ainda às forças da ID. G. S. e da Legião Portuguesa, que abusivamente foram recrutadas, lembra-se o seu dever cívico de contribuírem para a manutenção da ordem pública, o que na presente situação só poderá ser alcançado se não for oposta qualquer reacção às Forças Armadas. Tal reacção nada teria de vantajoso pois apenas conduziria a um indesejável derramamento de sangue que em nada contribuiria para a união de todos os portugueses.
Embora estando crentes no civismo e no bom senso de todos os portugueses no sentido de evitarem todo e qualquer recontro armado, apelamos para que os médicos e pessoal de enfermagem se apresentem aos hospitais para uma colaboração que fazemos votos por que seja desnecessária.

Às 5 horas

Atenção elementos das forças militarizadas e policiais. Uma vez que as Forças Armadas decidiram tomar a seu cargo a presente situação será considerado delito grave qualquer oposição das forças militarizadas e policiais às unidades militares que cercam a cidade de Lisboa.
A não obediência a este aviso poderá provocar um inútil derramamento de sangue cuja responsabilidade lhes será inteiramente atribuída.
Deverá por conseguinte, conservar-se dentro dos seus quartéis até receberem ordens do Movimento das Forças Armadas.
Os comandos das forças militarizadas e policiais serão severamente responsabilizados caso incitem os seus subordinados à luta armada.

Às 7,30 horas

Conforme tem sido difundido, as Forças Armadas desencadearam na madrugada de hoje uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina.
Nos seus comunicados as Forças Armadas têm apelado para a não intervenção das forças policiais com o objectivo de se evitar derramamento de sangue. Embora este desejo se mantenha firme, não se hesitará em responder, decidida e implacavelmente, a qualquer oposição que venha a manifestar-se.
Consciente de que interpreta os verdadeiros sentimentos da Nação, o Movimento das Forças Armadas prosseguirá na sua acção libertadora e pede à população que se mantenha calma e que se recolha às suas residências. Viva Portugal!

As 10,30 horas

O Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas constata que a população civil não está a respeitar o apelo já efectuado várias vezes para que se mantenha em casa.
Pede-se mais uma vez à população que permaneça nas suas casas a fim de não pôr em perigo a sua própria integridade física. Em breve será radiodifundido um comunicado esclarecendo o domínio da situação.

Às 11,45 horas

Na sequência das acções desencadeadas na madrugada de hoje, com o objectivo de derrubar o regime que há longo tempo oprime o País, as Forças Armadas informam que de Norte a Sul dominam a situação e que em breve chegará a hora da libertação.
Recomenda-se de novo à população que se mantenha calma e nas suas residências para evitar incidentes desagradáveis cuja responsabilidade caberá integralmente às poucas forças que se opõem ao Movimento.
Chama-se a atenção de todos os estabelecimentos comerciais de que devem encerrar imediatamente as suas portas, colaborando desta forma com o Movimento, de modo a evitar açambarcamentos desnecessários e inúteis.
Caso esta determinação não seja acatada, será forçoso decretar o recolher obrigatório. Ciente de que interpreta fielmente os verdadeiros sentimentos da Nação, o Movimento das Forças Armadas prosseguirá inabalavelmente na missão que a sua consciência de portugueses e militares lhes impõe. Viva Portugal!

Às 13 horas

O Movimento dias Forças Armadas informa as famílias de todos os seus elementos que eles se encontram bem e que tudo decorre dentro do previsto.
Pretendendo continuar a informar o Pais sobre o desenrolar dos acontecimentos históricos que se estão processando, o Movimento das Forças Armadas comunica que as operações, iniciadas na madrugada de hoje, se desenrolam de acordo com as previsões, encontrando-se dominados vários objectivos importantes, de entre os quais se citam os seguintes:
- Comando da Legião Portuguesa;
- Emissora Nacional;
- Rádio Clube Português;
- Radiotelevisão Portuguesa;
- Rádio Marconi;
- Banco de Portugal;
- Quartel-General da R. M. de Lisboa;
- Quartel-General da R. M. do Porto;
- Instalações do Quartel – Mestre – General;
- Ministério do Exército, donde o respectivo ministro se pôs em fuga;
- Aeroporto da Portela;
- Aeródromo Base n.º l;
- Manutenção Militar;
- Posto de Televisão de Tróia;
- Penitenciária do Forte de Peniche.

Sua Ex.ª o almirante Américo Tomás, Sua Ex.ª o Prof. Marcelo Caetano e os membros do Governo encontram-se cercados por forças do movimento no quartel da Guarda Nacional Republicana, no Carmo, e no Regimento de Lanceiros 2 tendo já sido apresentado um ultimato para a sua rendição.
O Movimento domina a situação em todo o País e recomenda, uma vez mais, que toda a população se mantenha calma. Renova-se também a indicação já difundida para encerramento imediato dos estabelecimentos comerciais, de forma a não ser forçoso o decretar do recolher obrigatório. Viva Portugal!

Às 15 horas

O Movimento das Forças Armadas, tendo conhecimento de que elementos da Guarda Nacional Republicana se fazem passar por elementos amigos avisa de que tais elementos são adversos, pelo que aconselha a população a abandonar o Largo do Carmo, o Rossio e o Camões.

Às 17,30 horas

O Movimento das Forças Armadas têm ocupados os estúdios da R. T. P. em Lisboa e no Porto, embora no centro emissor de Monsanto se registe uma interferência provocada por forças da reacção, que, a todo o momento serão dominadas. Logo de seguida, a Radiotelevisão Portuguesa entrará ao serviço do Movimento das Forças Armadas e do Pais,noticiando os seus comunicados.

Às 18,20 horas

Aqui posto de comando das Forças Armadas. Em aditamento ao último comunicado, o Movimento das Forças Armadas informa a Nação que conseguiu forçar a entrada no quartel da Guarda Nacional Republicana, situado no Largo do Carmo, onde se encontrava o ex. – Presidente do Conselho e outros membros do seu ex. – Governo.
O Regimento de Lanceiros 2, onde se recolheram outros elementos do seu ex. -Governo, entregou-se ao Movimento das Forças Armadas, sem que houvesse necessidade do emprego da força que os cercava.
A quase totalidade da Guarda Nacional Republicana, incluindo o seu comando e a maioria dos elementos da Polícia de Segurança Pública, já se rendeu ao Movimento das Forças Armadas.
O M. F. A. agradece à população civil todo o carinho e apoio que tem prestado aos seus soldados, insistindo na necessidade de ser mantido o seu valor cívico ao mais alto grau. Solicita também que se mantenha nas suas residências durante a noite, a fim de não perturbar a consolidação das operações em curso, prevendo-se que possa retomar as suas actividades normais amanhã, dia 26. Viva Portugal!

Às 19,50 horas

Posto de contando do Movimento das Forças Armadas.
Continuando a dar cumprimento à sua obrigação de manter o País ao corrente do desenrolar dos acontecimentos, o Movimento das Forças Armadas informa que se concretizou a queda do Governo, tendo Sua Ex.ª o Prof. Marcelo Caetano apresentado a sua rendição incondicional a Sua Ex.ª o general António de Spínola. O ex-presidente do Conselho, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e o ex-ministro do Interior encontram-se sob custódia do Movimento, enquanto Sua Ex.ª o almirante Américo Tomás e alguns ex-ministros do Governo se encontram refugiados em dois aquartelam entoa que estão cercados pelas nossas tropas e cuja rendição se aguarda para breve.
O Movimento das Forças Armadas agradece a toda a população o civismo e a colaboração demonstrados de maneira inequívoca desde o início dos acontecimentos, prova evidente de que ele era o intérprete do pensamento e dos anseios nacionais.
Continua a recomendar-se a maior calma e a estrita obediência a todas as indicações que forem transmitidas. Espera-se que amanhã a vida possa retomar o seu ritmo normal, para que todos, em perfeita união, consigamos construir um futuro melhor para o País. Viva Portugal!

Às 21 horas

Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Segundo comunicação telefónica aqui recebida cerca das 20.30, ter-se-iam verificado incidentes na Rua António Maria Cardoso, onde se situa a sede da D. G. S.
No decorrer desses incidentes, foram feridas algumas pessoas, encontrando-se já no local assistência médica. Aguarda-se a todo o momento a intervenção das Forças Armadas. Estes incidentes vêm mais uma vez confirmar a necessidade de a população civil cumprir o pedido formulado pelo M. F. A., recolhendo às suas residências e mantendo a calma.
Para conhecimento de toda a população informa-se que se encontram sanados os incidentes ocorridos com a Polícia de Segurança Publica e que, a partir deste momento, ela aderiu totalmente ao movimento. Assim com a finalidade de manter a ordem e salvaguardar as vidas e os bens, pede-se a todos que aceitem, obediente e prontamente, quaisquer indicações que lhes sejam transmitidas por elementos daquela corporação ou da Polícia Militar. Igualmente deverão ser obedecidos os agentes das Brigadas de Trânsito. Torna-se indispensável que a população continue a manifestar a sua compreensão e civismo. E a melhor forma de o fazer no momento é manter-se calmamente nas suas residências.

AS RAZÕES DO MOVIMENTO (COMUNICADO DO M. F. A. - 25/4/74) Considerando que ao fim de 13 anos de luta em terras do Ultramar, o sistema político vigente não conseguiu definirem concreta e objectivamente uma política ultramarina que conduza à Paz entre os Portugueses de todas as raças e credos.
Considerando o crescente clima de total afastamento dos Portugueses em relação às responsabilidades políticas que lhes cabem como cidadãos em crescente desenvolvimento de uma tutela de que resulta constante apelo a deveres com paralela denegação de direitos;
Considerando a necessidade de sanear as instituições, eliminando do nosso sistema de vida todas as ilegitimidades que o abuso do poder tem vindo a legalizar.
Considerando, finalmente, que o dever das Forças Armadas é a defesa do País como tal se entendendo também a liberdade cívica dos seus cidadãos, o Movimento das Forças Armadas, que acaba de cumprir com êxito a mais importante das missões cívicas dos últimos anos da nossa História, proclama à Nação a sua intenção de levar a cabo, até à sua completa realização, um programa de salvação do País e da restituição ao Povo Português das liberdades cívicas de que tem sido privado.
Para o efeito entrega o Governo a uma Junta de Salvação Nacional a que exige o compromisso com as linhas gerais do programa do Movimento das Forças Armadas, que através dos órgãos informativos será dado a conhecer à Nação, no mais curto prazo consentido pela necessidade de adequação das nossas estruturas, promover eleições gerais de uma Assembleia Nacional Constituinte, cujos poderes pôr sua representatividade e liberdade na eleição permitam ao País escolher livremente a sua forma de vida social e política.
Certos de que a Nação está connosco e que, atentos aos fins que nos presidem, aceitará de bom grado o Governo Militar que terá de vigorar nesta fase de transição, o Movimento das Forças Armadas apela para a calma e civismo de todos os portugueses e espera do País adesão aos poderes instituídos em seu benefício.
Saberemos deste modo honrar o passado no respeito pêlos pelos compromissos assumidos perante o País e por este perante terceiros. E ficamos na plena consciência de haver cumprido o dever sagrado (Já da restituição ia à Nação dos seus legítimos e legais poderes.

PROCLAMAÇÃO AO PAÍS LIDA POR SPÍNOLA (26/4/74)

Em obediência ao mandato que acaba de lhes ser confiado pelas Forças Armadas, após o triunfo do Movimento em boa hora levado a cabo pela sobrevivência nacional e pelo bem-estar do Povo Português, a Junta de Salvação Nacional, a que presido, constituída por imperativo de assegurar a ordem e de dirigir o País para a definição e consecução de verdadeiros objectivos nacionais, assume perante o mesmo o compromisso de:
- Garantir a sobrevivência da Nação, como Pátria Soberana no seu todo pluricontinental;
- Promover, desde já, a consciencialização dos Portugueses, permitindo plena expressão a todas as correntes de opinião, em ordem a acelerar a constituição das associações cívicas que hão-de polarizar tendências e facilitar a livre eleição, por sufrágio directo, de uma Assembleia Nacional Constituinte e a sequente eleição do Presidente da República;
- Garantir a liberdade de expressão epensamento;
-Abster-se de qualquer atitude política que possa condicionar a liberdade da eleição e a tarefa da futura Assembleia Constituinte e evitar por todos os meios que outras forças possam interferir no processo que se deseja eminentemente nacional;
- Pautar a sua acção pelas normas elementares da moral e da justiça, assegurando a cada cidadão os direitos fundamentais estatuídos em declarações universais e fazer respeitar a paz cívica, limitando o exercício da autoridade à garantia da liberdade dos cidadãos;
- Respeitar os compromissos internacionais decorrentes dos tratados celebrados;
- Dinamizar as suas tarefas em ordem em que no mais curto prazo o País venha a governar-se por instituições de sua livre escolha;
- Devolver o poder às instituições constitucionais logo que o Presidente da República eleito entre no exercício das suas funções.

A JUNTA ADVERTE (3/5/74)

Embora a Junta de Salvação Nacional se sinta reconhecida pelo exuberante apoio dado ao Movimento das Forças Armadas pelo Povo Português, pêlos pelos movimentos políticos e sindicatos, comunica ao País que não pode consentir, nem consentirá, que a sua autoridade – garante da defesa dos sãos princípios democráticos - seja afectada por procedimentos não previamente sancionados pelo Poder que assumiu e exerce.
Enquanto não for constituído o Governo provisório, compete aos Departamentos oficiais vigentes continuar a dirigir a vida da Nação e a regular as actividades públicas e privadas, sendo considerados actos de insubordinação e crimes contra o Movimento das Forças Armadas, e, como tal, vigorosamente reprimidas, investigadas e julgadas todas as interferências de pessoas, grupos e instituições na condução que só ao poder constituído compete. Toda e qualquer colaboração, bem como sugestões de medidas de saneamento a tomar deverão ser oferecidas e apresentadas aos delegados da Junta de Salvação Nacional junto dos respectivos departamentos, aos quais cumpre tomar as decisões que as circunstâncias aconselharem.
Procedimento contrário, embora por vezes bem intencionado, compromete os fins da real democratização e liberalização que inspirou o Movimento das Forças Armadas, podendo afectar a confiança que no mesmo deposita a Nação e conduzir ao sistema totalitário que o País quer definitivamente abatido.
A Junta de Salvação Nacional está crente que todos os portugueses verdadeiramente conscientes e bem formados reconhecem que não se podem pôr em prática de um dia para o outro as medidas que se impõe tomar, e que só progressivamente na ordem e na disciplina se poderá garantir ao País as liberdades fundamentais.

SPÍNOLA É PROCLAMADO PRESIDENTE DA REPÚBLICA (15/5/74)
PROCLAMAÇÃO

De harmonia com a decisão da Junta de Salvação Nacional que assumiu a direcção dos destinos da Nação, a partir do dia 25 de Abril último, tenho a honra de proclamar Presidente da República o general António de Spínola que exercerá as suas funções com os poderes semelhantes aos previstos na actual Constituição até às eleições gerais a realizar dentro de um ano.

PALAVRAS PROFERIDAS PELO GENERAL COSTA GOMES
SENHOR PRESIDENTE DA REPUBLICA:

Os jovens do Movimento das Forças Armadas realizaram em 25 de Abril a mais digna Revolução da História Contemporânea.
A Junta de Salvação Nacional, por eles escolhida, em acto de inspiração e justiça elegeu V. Ex.ª para representante maior do Povo de Portugal.
As minhas palavras não adicionarão um átomo à sua estatura profissional de soldado ou ao seu perfil de político e homem de letras.
Recordamo-lo como capitão empreendedor que restabeleceu a Revista de Cavalaria e a dirigiu durante tantos anos.
Vemo-lo consagrado no Norte de Angola como chefe militar, tão ousado e valoroso que o adversário o considerava invulnerável às balas.
Reconhecemo-lo no Sul, em tarefas de promoção social, apóstolo da paz nas relações com Cuanhamas e Cuamatos.
Encontramo-lo na Guiné tão sereno frente ao perigo como humano na acção governativa; do irmão Spínola falam os Guinéus que o veneram.
A culminar uma longa bibliografia poli facetada, surge na plenitude do seu talento político – literário o Livro da esperança nacional que foi o idearia da Revolução das Cravos.
Que Deus o proteja para Bem do Povo e glória de Portugal.

DISCURSO DE ANTÓNIO DE SPÍNOLA

Portugueses: Ao ser investido nas funções de Presidente da República por decisão da Junta de Salvação Nacional, sinto-me no dever de me vincular ao idearia do Movimento das Forças Armadas, à luz do qual se cumprirá a tarefa de construção do futuro e por cuja execução assumo, perante o País, o mais solene compromisso.
São para as Forças Armadas as minhas primeiras palavras. Vilipendiadas pelas atitudes servis de alguns dos seus chefes, injustamente acusadas dos erros dos políticos, violentadas a coberto do seu elevado sentido da honra e do dever, quase destruídas, em suma, no que representavam de instituição eminentemente nacional, as Forças Armadas, pela mão dos seus quadros mais jovens, souberam apesar de tudo mobilizar a sua última reserva moral colocando-se ao serviço da Nação, de que há décadas haviam sido desviadas.
A Pátria deve a hora grandiosa que hoje vive a esses jovens que souberam manter acesa a chama do dever, e que, na nobreza do seu idealismo, arrastaram com eles à vitória o Povo Português. Na consciência de que a plenitude da soberania pertence à Nação, cabendo às Forças Armadas a sua instante defesa, o Movimento das Forças Armadas, em rasgo de serena audácia e perfeita isenção, restituiu Portugal ao seu Povo. Jamais os Portugueses poderão esquecer o verdadeiro alcance da gesta libertadora destes magníficos militares que salvaram o País da tragédia nacional para que se caminhava. Devemos ao seu patriotismo e ao seu sentido do dever como servidores do Povo sem partidarismos, o momento histórico que a Nação vive. E por mais eloquentes que sejam as palavras, só a História e os vindouros saberão julgar toda a extensão e incomensurável serviço prestado à Pátria e ao Povo Português do Movimento das Forças Armadas.
Vividas as primeiras semanas de natural explosão emotiva, pontuada todavia por alguns excessos lesivos do clima de tranquilidade cívica cuja firme salvaguarda se impõe, o País vai entrar numa fase de reflectida ponderação, iluminada pelo reconhecimento de que democracia não significa anarquia, e de que a confusão dispersiva de actuações descoordenadas não ajuda, de modo algum, a construção do futuro que o Povo Português anseia.
O desrespeito pela ordem social decorrente de uma sólida fundamentação democrática e do perfeito funcionamento de instituições representativas, foi sempre, em todos os tempos e latitudes, a porta por onde entraram os ditadores. Bem gostaríamos de a ter encerrado definitivamente; mas só o conseguiremos quando cada português impuser a si próprio, em livre expressão da sua capacidade para o exercício da cidadania, o mais alto padrão de disciplina cívica, sem o qual jamais poderá edificar-se uma autêntica democracia.
Impõe-se-nos, antes de mais, fazer um profundo exame de consciência, para concluir se será, de facto, democrático o processo esboçado de decidir e aplicar decisões fraccionárias antes de o Povo definir, em consenso, o tipo de sociedade em que deseja viver. E que a democracia e o governo do povo, pelo povo e para o povo, não podendo entender-se senão na mais inteira liberdade de expressão, associação, reunião, debate e votação das decisões colectivas pela via de instituições legítimas, logo seguida da mais estrita observância das decisões assim tomadas. Creio firmemente ser essa a única forma de vida política onde cabe a dignidade humana; de resto, foi em nome desse ideal cívico que as Forças Armadas libertaram o País.
A democracia não se conquista; talvez mesmo se não construa; a democracia vive-se. E, assim, o nosso propósito não pode ser outro senão o lançamento de bases sólidas para essa vivência; propósito aliás claramente expresso no programa do Movimento das Forças Armadas que vale a pena evocar nos seus traços essenciais.
Reitero por isso o programa traçado, tendente a promover a estruturação partidária e associativa em clima da mais completa abertura, devendo o poder instituído assegurar que as liberdades de uns não sejam ameaçadas por excessos de outros. Empenhar-nos-emos em evitar, por todos os meios, que o processo de politização dos cidadãos possa ser entravado ou comprometido, constituindo ponto firme do nosso programa o desmantelamento do aparelho repressivo do antigo regime. Mas os caminhos que o País haverá de trilhar terão de ser definidos por instituições democráticas verdadeiramente representativas e solidamente implantadas, através das quais todos os cidadãos possam exprimir-se, onde todas as correntes de opinião se façam ouvir e em cujo topo se encontre, em lírica expressão final da soberania, uma Câmara Legislativa constituída por mandatários incontestáveis do Povo português. Serão as decisões dessa Câmara, depois de referendadas, que definirão o nosso estatuto político, económico e social. E só então nascerá, de facto, o Portugal renovado que ambicionamos.
Entretanto, os nossos esforços centrar-se-ão no restabelecimento da paz no Ultramar; mas o destino do Ultramar português terá de ser democraticamente decidido por todos os que àquela terra chamam sua. Haverá que deixar-lhes inteira liberdade de decisão; e em África, como aqui, evitaremos por todas as formas que a força de minorias, sejam elas quais forem, possa afectar o livre desenvolvimento do processo democrático em curso.
Nesta linha de pensamento, desejamos firmemente, em plena corporização dos ideais do Movimento triunfante, que a paz volte ao Ultramar. E pensamos que o regresso dos partidos africanos de emancipação ao quadro da actividade política livremente desenvolvida será a prova cabal do seu idealismo e o mais útil contributo para o pleno esclarecimento e a perfeita consciencialização dos povos africanos, em ordem a uma opção final conscientemente promovida e escrupulosamente respeitada.
Na ordem interna, empenhar-nos-emos em tornar representativas as organizações políticas, sociais e económicas, reparar injustiças sociais e cívicas, recuperar valores e assegurar o justo equilíbrio nas relações de trabalho.
Para tanto, haverá que acelerar o ritmo de expansão económica; garantir, dentro dos sãos princípios da ordem democrática, a completa liberdade sindical dos trabalhadores e do patronato; desmantelar o antigo controlo corporativo e aniquilar os seus estrangulamentos; criar um clima propício à constituição de partidos e associações político-económicas que exprimam todas as correntes de opinião; promover a livre eleição da nova Assembleia Constituinte; sujeitar a referendo a Lei Fundamental que definirá o estatuto de livre escolha do Povo Português; e finalmente entregar o Poder às novas instituições livremente constituídas e como tal perfeitamente legitimadas.
É evidente que terá de proceder-se, em paralelo, ao saneamento moral do País e à reformulação de todo um complexo de conceitos de justiça social, delineando as bases em que irá moldar-se o perfil da nova sociedade portuguesa.
Na ordem externa, manteremos os nossos compromissos de natureza política, económica e militar, para os quais não há, de momento, outras razões limitativas senão as claramente decorrentes do circunstancialismo do momento que vivemos e da salvaguarda de riscos imediatos.
Entendo não dever ir mais longe nas minhas afirmações, pois a partir de amanhã o País terá à sua frente um Governo Provisório a quem será entregue a prossecução das tarefas que hão-de corporizar o ideal proclamado. Na verdade, se o Movimento das Forças Armadas libertou o Pais dos que agiam em seu nome mas sem mandato, não faria sentido que, ao ultrapassar o quadro traçado, voltássemos afinal ao mesmo sistema de decisões unilateralmente tomadas, embora sob outro rótulo e pela mão de outros poderes.
Nem se argumente que tais tarefas seriam legitimadas pela vontade do Povo expressa nas gigantescas demonstrações cívicas a que o País assistiu. Será bom recordar que os ditadores começaram sempre reformando à margem das instituições sob o eufórico aplauso popular. Foi aliás essa forma demagógica de transformar o Poder em tirania com o apoio das massas em delírio que esteve sempre na origem dos regimes totalitários. Ao contrário, o propósito que nos anima é o de criar a defender instituições democráticas estáveis, na serenidade de espírito com que devem tomar-se as decisões por que há-de reger-se um povo.
Competirão, portanto, ao Governo Provisório as tarefas administrativas necessárias à vida quotidiana que não pode parar, e a ingente missão de, a par da construção do bem-estar económico e social, edificar e consolidar a democracia através da qual o Povo Português encontrará a autêntica liberdade.
Terá de ser, assim, um Governo sem partidos, porque é de todos os partidos; sem tendências, porque nele cabem todas as tendências; sem programas, porque o seu programa é o do Movimento das Forças Armadas. É nesse sentido de eminência nacional que se enquadra; e a essa luz governará a Nação até que esta tenha ultimado quanto carece para governar-se a si própria, no pleno exercício da soberania que enfim se lhe devolve.
A realização desta gigantesca tarefa de preparação e de recuperação do País tem necessariamente de basear-se na estabilidade social e na expansão económica, impondo-nos serenidade cívica e a obrigação moral de uma total entrega ao trabalho intenso em todos os sectores da vida nacional.
Não podemos, de forma alguma, deixar que pressões de qualquer ordem venham perturbar o nosso processo de evolução; e à imagem do Portugal Renovado que estamos construindo teremos de associar a afirmação de plena capacidade para evoluir politicamente sem convulsão social nem quebra do ritmo da formação de riqueza que a todos aproveite. Daí justificar-se, mais do que nunca, o apelo ao trabalho no sentido de um aumento de produtividade, sendo esta, de momento, a mais instante das reivindicações; apelo, por isso, à consciência colectiva do operoso Povo Português que por certo não desejará a sua libertação ensombrada pelo espectro desolador de uma crise económica com todo o cortejo de privações e sob o signo do desemprego.
E tão-pouco será em clima de ódio cego e de obstinação vingativa sobre os responsáveis dos males passados que construiremos a imagem que há-de restituir-nos, perante o mundo, o lugar que nos cabe no contexto das Nações. Para tanto, impõe-se que sejamos coerentes e se entregue à isenção da Justiça o apuramento de responsabilidades pelos crimes e iniquidades cometidos à sombra do velho regime. E bem desejaria que, nesta hora de arranque para uma nova ordem, esse apelo à coerência encontrasse eco no espírito de todos os Portugueses, pois o Movimento das Forças Armadas triunfou para que as decisões arbitrárias e os anteriores métodos de repressão fossem banidos da vida nacional, e não para que houvesse apenas simples mudança de executores.
São estes os traços gerais da missão em que me empenharei durante o mandato que o Movimento das Forças Armadas me confiou. Tomo perante o Povo Português a responsabilidade do seu integral cumprimento; e faço-o de consciência tranquila, pois jamais a vida política se me revelou aliciante. Servirei o País com a mesma santa devoção com que sempre o servi, como soldado que me orgulho de ser; e desejo por isso concluir, com a afirmação de que a minha presença neste lugar deverá ser por todos entendida, antes de tudo e apenas, como firme e cabal garantia de que não serão traídas as esperanças despertas nos corações portugueses na manhã de 25 de Abril. Cumprida essa missão, e entregue o testemunho ao Presidente da República que o País livremente escolher, recolherei de novo ao seio das Forças Armadas de que nunca me afastei, e onde irei reintegrar-me com a consciência de ter cumprido o meu dever.

GALVÃO DE MELO ESTÁ ATENTO (INTERVENÇÃO NA RTP -27/5/74)

Com data de 22 de Maio, recebi uma carta que, embora dirigida à Junta de Salvação Nacional, vinha ao meu cuidado. Escrita por um só português, poderia ter sido escrita por todos os portugueses autênticos. Vale a pena torná-la conhecida. Por isso aqui estou. Ora escutai:
«À Junta de Salvação Nacional:
Aderi, desde a primeira hora, ao Movimento das Forças Armadas e ao programa da Junta de Salvação Nacional.
Não represento ninguém, senão eu próprio, mas, passadas quatro semanas sobre o 25 de Abril, começo a perguntar, e não obtenho resposta, se isto será a LIBERDADE que o Povo Português sonhava:
- Isto que é libertarem-se terroristas sem Pátria e transformá-los em heróis nacionais!
– Isto que é permitir-se e fomentar-se a «caça ao homem», o insulto gratuito, as ofensas corporais, saque de casas!
– Isto que é boicote de alguns, criado nas estações oficiais de rádio e televisão, com noticiários vergonhosos e impunemente parciais, em que os próprios locutores se permitem as atitudes mais impróprias, e nos martelam com programas e reportagens de nível baixo de todos os limites, não permitindo pôr a claro as meias verdades e as mentiras propagadas nas emissões que são pagas por todos nós; e tudo isto sem que nenhum locutor ainda tenha sido suspenso, como já teria acontecido em qualquer país civilizado!
– Isto que é permitir-se a ignóbil transcrição, em jornais que estão ao alcance de qualquer criança, do comunicado das prostitutas e dos homossexuais, numa demonstração de amoralidade sem precedentes em qualquer país em que a Família e a Moral existem ainda como valores!
– Isto tudo será a liberdade?
A resposta a isto tudo começam a dar os jornais estrangeiros, e bem insuspeitos, que já troçam e nos apontam como a Democracia Carnavalesca.
Em consciência, portanto, não podia deixar de me dirigir à Junta de Salvação Nacional e manifestar as minhas enormes apreensões pelo clima de anarquia que se vive e respira a todos os níveis e que está em total desacordo com a Liberdade responsável que o Movimento das Forças Armadas veio trazer aos portugueses da metrópole e do ultramar.
Por último, pergunto:
- Poderá o País aguentar a crise económica que dia a dia se vai desenhando diante de todos, com a paralisação da indústria e do comércio, com o aumento do desemprego, como consequência da falência inevitável de pequenas e médias empresas que soçobram perante exigências demagógicas de oportunistas, que se dizem representar o trabalhador honesto, o qual, na sua boa-fé, assim se deixa enganar por gente sem escrúpulos?
Que Deus guarde Portugal!»
Aqui termina a carta que foi escrita por um só português e poderia ter sido escrita por todos os portugueses autênticos que nesta hora me escutam.
Não vou comentar, em detalhe, a carta que acabei de vos ler: concordo com o autor nas suas preocupações fundamentais, e tanto me basta.
Portugueses:
No Mundo, existe um valor: o Homem.
Neste Homem devemos entender todos os homens: o ministro, que noite dentro cogita preocupado sobre o que será melhor para o povo que nele confia; e o cavador, que, de sol a sol, fecunda a terra com o esforço dos seus braços robustos. Ambos são dignos do nosso respeito e do nosso agradecimento... quando ambos cumprem até ao limite das capacidades com que os dotou a Natureza ou ulterior circunstância de acaso.
Foi para este Homem – para estes dois homens – que certa juventude militar, amadurecida no drama africano, se levantou cedo na madrugada de 25 de Abril e, unânime e decidida, abriu de par em par as portas da liberdade ao homem português:
- A liberdade de pensar e se instruir;
- A liberdade de criar ideias próprias e as discutir com o seu igual, o homem da cidade e o homem do campo, para, ambos, encontrarem a melhor ideia e a mais digna;
- A liberdade de todos os Portugueses escolher o que melhor for para todos os Portugueses.
É esta – e não outra - a Liberdade que a Junta de Salvação Nacional tomou a seu cargo respeitar e defender. É esta – e não outra – a Liberdade que a juventude heróica dos capitães depositou nas mãos experimentadas dos generais.
Estamos atentos, também nós, provavelmente antes de quaisquer outros, e breve nos demos conta do mau uso que se vem fazendo da Liberdade oferecida ao povo de Portugal, vai decorrido um mês.
É verdade que muita coisa nos desgosta, e quase espanta a ingratidão que é tão maltratar aquilo que com tanta emoção e dignidade foi oferecido!
Mas, talvez, o que se vê e ouve, tão contrário ao bem comum por que todos ansiávamos, seja apenas o gesticular grotesco, o vozear desafinado, de uns poucos que nunca pegaram na enxada para cavar o pão que comem por excesso ou jamais puderam conceber idades que mereçam a pena ouvir sem que no-las gritassem.
Também há os que nada querem senão o mal...
Teremos de os ensinar, usando de certa paciência e da firmeza necessária.
Porém – e é esta a nossa grande esperança e veemente desejo -, pode ser que o que se vê e ouve, tão contrário ao bem comum por que antes todos ansiávamos, não seja outra coisa que o despertar tumultuoso de um povo inocente que ousa os primeiros passos num caminho seu desconhecido: o longo e difícil caminho da Liberdade.
Esteja atento, mas tranquilo, o autor da carta; estejam atentos, mas tranquilos todos os Portugueses.
As Forças Armadas cometeram-se a missão de libertar o povo de Portugal.
Podem ficar com a certeza de que cumpriremos!
Somos homens de fé. Não abdicamos da causa começada.

SPÍNOLA NO PORTO (29/5/74)

É com profunda emoção que comungo do vosso contagiante entusiasmo. Não ides ouvir um discurso formal do Chefe de Estado mas apenas a voz de um Português verdadeiramente amante da sua Pátria, um Português como vós galvanizado pelo comum anseio de construir um Portugal Novo.
Um Portugal democrático, verdadeiramente livre e com mais justiça social. Um Portugal onde todos os Portugueses possam viver uma vida mais digna e mais feliz.
Mas esse Portugal livre por que todos ansiamos terá de ser edificado sob o signo da paz, da justiça e do trabalho.
Sem paz nos campos, nas fábricas, nas ruas e nos espíritos, sem o esforço conjunto de todos os Portugueses em ordem a aumentar a produtividade do trabalho, e sem justiça social traduzida numa equitativa distribuição do produto desse trabalho, jamais será possível construir o Portugal próspero do futuro – um Portugal onde a felicidade e o bem-estar não sejam apenas privilégio de alguns mas entrem livremente em todas as casas.
No dia 25 de Abril, as Forças Armadas restituíram a liberdade ao Povo Português. A partir de então acabaram os paternalismos de «elites» equívocas e o Povo pode expressar livremente, em diálogo aberto, os seus legítimos anseios.
Mas passado o primeiro mês de eufórico entusiasmo, é tempo de todos os Portugueses reflectirem que uma sociedade livre e democrática não é possível sem disciplina cívica e respeito mútuo. Para que a bandeira da Pátria seja efectivamente o símbolo da liberdade do seu povo, cada cidadão tem de respeitar a liberdade dos seus concidadãos, pois só num clima de recíproco respeito, na disciplina e na ordem poderemos consolidar a liberdade que as Forças Armadas nos ofereceram.
É tempo de cada Português meditar profundamente nos caminhos que pode tomar a partir de agora: o caminho da salvação do País ou o da sua ruína.
É tempo de todo o Português concluir por si mesmo que qualquer forma de anarquia acabará fatalmente por abrir a porta a novas ditaduras.
Daqui alerto todos os Portugueses de que as ideias democráticas e de liberdade que inspiraram o Movimento das Forças Armadas estão sendo sub-repticiamente minadas por forças contra-revolucionárias. Forças que se situam em diversos sectores da Nação e visam unicamente a destruição, a anarquia, o caos económico, o desemprego, na concretização prática da conhecida teoria da «terra queimada», para sobre a ruína económica e moral da Nação e utilizando como argamassa a nossa carne e o nosso sangue, construir algo de alheio ao País que todos sonhamos.
Eis a primeira grande opção que o Povo Português tem de fazer: a liberdade democrática ou o anarquismo. É chegada a altura de consolidar e reforçar a união do Povo com as Forças Armadas, combatendo em comum os inimigos da liberdade e da democracia, que pretendem por todas as formas opor-se ao rápido progresso económico do País – única via de nos anteciparmos à grave crise de desemprego e miséria para que criminosamente nos querem encaminhar as forcas da contra-revolução. E desejo reforçar este apelo à consciência do Povo Português com a garantia de que as Forças Armadas não deixarão trair a pureza dos princípios democráticos que inspiraram o Movimento de 25 de Abril; e se alguma vez forem obrigadas a responder à violência com a força fá-lo-ão sem hesitações, agora com a reforçada e legitimada autoridade de quem age em defesa da autêntica liberdade do Povo Português.

SPÍNOLA EM COIMBRA (31/5/74)

Foi com viva emoção que escutei as palavras de saudação do presidente da comissão administrativa da Câmara Municipal desta velha mas sempre jovem cidade de Coimbra. Palavras que calaram fundo no coração de um português, que, como qualquer de vós, partilha da mesma legítima aspiração a um Portugal livre e democrático.
É, portanto, como cidadão que me dirijo ao povo de Coimbra, cidade tão antiga como a Pátria. Povo que nasceu, vive e trabalha à sombra de pedras impregnadas de tradição de história. Povo cujo espírito se caldeou em clima de constante evocação dos grandes liberais aqui formados que rasgaram novos horizontes ao mundo do conhecimento. Povo orgulhoso da sua Universidade – pólo de irradiação cultural e ao mesmo tempo centro de ideias criadoras, que sempre situaram Coimbra em posição de vanguarda no pensamento e na acção.
Por isso a gente conimbricense foi sempre aberta a ideários progressistas, a que não é alheio o permanente convívio com os jovens intelectuais que hospeda, lídimos representantes daquela juventude saudavelmente irrequieta que com generosidade e entusiasmo alimenta o progresso das nações.
Foi neste clima de síntese do passado e do futuro, e neste ambiente misto de tradição e de modernidade, que a cidade de Coimbra se transformou num centro de difusão de cultura e em notável pólo vanguardista do desenvolvimento social e político da Nação.
Deverá ser essa a razão por que os conimbricenses tão bem souberam entender o espírito liberal que inspirou o Movimento das Forças Armadas.
E termino na segura convicção de que Coimbra saberá consolidar na ordem a liberdade conquistada, construir no trabalho produtivo a prosperidade da sua gente e da sua terra. Saberá também compreender que para reivindicar é preciso primeiro edificar, e que não poderá distribuir-se riqueza sem primeiro a produzir. Saberá, enfim, o povo de Coimbra fazer uso da liberdade que lhe foi restituída, liberdade que se encontra na mais profunda tradição desta cidade, em cujas Cortes aprendeu a não abdicar dos seus direitos, com a legitimidade de quem respeita voluntariamente o pacto social a que aderiu.
E ao agradecer-vos esta recepção, não posso deixar de manifestar o conforto que levo da certeza de que o povo de Coimbra saberá manter bem vivo o espírito do Portugal Novo nascido na madrugada de 25 de Abril – um Portugal democrático, verdadeiramente livre e com mais justiça social.
Viva Portugal!

SPÍNOLA DÁ POSSE AO CONSELHO DE ESTADO (31/5/74)

Acabam VV. Ex. as de ser empossados nas funções de Conselheiros de Estado, completando-se com este acto a estrutura política que presidirá ao País até à definição da nova lei fundamental.
Compõem o Conselho de Estado os membros da Junta de Salvação Nacional, alguns elementos preponderantes do Movimento das Forças Armadas e sete cidadãos de alta capacidade crítica e reconhecido esclarecimento. Não se me afigura necessário referir aqui as responsabilidades que sobre VV. Ex. as impendem, pois a sua dimensão encontra-se claramente expressa no diploma constitucional que delimita as funções deste órgão. Bastará apenas sublinhar que o âmbito das tarefas a que serão solicitados se situa no mais alto nível entre os mandatários da Nação, tendo-lhes sido atribuída competência que situa o Conselho de Estado na cúpula do presente quadro institucional.
Cumpre-nos, essencialmente, reconstruir uma Nação devolvida a si própria, o que exige uma total mobilização de capacidades e, acima de tudo, a mais constante e absoluta coerência com os princípios e objectivos do regime democrático que nos propusemos instituir.
Temos de reconhecer que uma Nação governada há meio século à margem da participação efectiva do povo constitui presa fácil de oportunismos políticos, sempre atentos a qualquer clivagem por onde possam infiltrar-se. E nunca será de mais denunciar quanto essas manobras são contrárias ao interesse geral, pois apenas visam através do caos obter o mando. Jamais interessou aos oportunistas o bem-estar dos povos; sempre se aliaram a quem pudesse facilitar-lhes o acesso ao poder mediante uma simples mudança de mão, aproveitando em seu benefício exclusivo todo o enfraquecimento da autoridade.
Tal risco agudiza-se entre nós pelas possibilidades da contra-revolução se infiltrar nos mais bem intencionados movimentos, desvirtuando-os e levando-os a exceder os limites do razoável e do possível, a promover a desordem cívica e por essa via operar o regresso ao passado que firmemente desejamos banir.
Não cabem nos sãos princípios democráticos imposições de vontade que não resultem de lei expressa, nem é democrática a intimidação de minorias nem a vida das sociedades à margem das leis. É neste contexto que se revela imperioso o reconhecimento de um poder moderador, que sendo de todos não se enfeude a ninguém e cujo papel é o de assegurar a protecção dos mais fracos contra a violação das suas consciências. É esse o poder que vos compete assumir. Teremos pois de empenhar-nos, por todos os meios, em ajudar os Portugueses a tomar imediata consciência de que a liberdade é, acima de tudo, o primado da lei em cuja feitura todos participam, jamais sendo possível na ausência da lei, e muito menos ainda quando entendida como a faculdade de cada um ditar a sua própria lei.
Para tanto, haverá que institucionalizar os partidos políticos como formas de expressão decorrentes do pensamento e da vontade da Nação. Mas seria bom que os partidos políticos fossem concebidos mais como associações de opinião do que como organizações enquadrantes de cidadãos espartilhados por políticas partidárias demasiado rígidas. E se as concepções totalitárias do Estado assentam sempre em partidos únicos, rigidamente estruturados, não fará sentido que os Portugueses celebrem a sua libertação sem atentar no risco de fundamentos menos reflectidos, acabando, nessa eventualidade, por aderir a organizações em tudo similares às que estiveram na origem de um regime cujo regresso nos negamos terminantemente a aceitar.
É tempo de cada português saber distinguir entre programas políticos autênticos e amontoados de bem orquestrados «slogans» demagógicos. Queremos, de facto, um País novo, cujos cidadãos se orgulhem de pertencer a uma sociedade aberta, constituída por seres pensantes, livres, capazes de debater em diálogo os problemas da sua comunidade, desde a família até ao conjunto da Nação.
Mas para que tal debate não redunde em factor de desagregação, impõe-se combater eficazmente todo o desvio da linha dos superiores interesses do País, neste caso traduzida na implantação de um regime democrático. De outra forma, estaríamos traindo as Forças Armadas e o próprio Povo, denegando à partida toda a possibilidade de construir o País que queremos ser.
Não creio, senhores conselheiros, que na presente conjuntura possa ser outro o quadro conceitual em que teremos de nos inserir. E porque do actual esquema político do País se irá passar para o regime que o Povo dentro de um ano referendar, a constituição do Conselho de Estado marca um patamar no processo de entrega de responsabilidades às instituições a quem foi dada a incumbência de preparar a reconversão nacional.
Termina, assim, a fase do pronunciamento militar com o retorno ao clima de legítima institucional idade que a Moral e o Direito impõem. E bem podem as Forças Armadas, ao completar a tarefa a que se comprometeram, sentir-se orgulhosas de haverem cumprido o seu dever. Dever que lhes impõe aturada vigilância e absoluta isenção, no respeito pelos princípios consagrados da ética militar, à luz dos quais lhes compete defender o País e o bem-estar dos seus cidadãos, sem, todavia, deter em seu nome o Poder senão pelo prazo indispensável à consolidação da ordem civil.
Nunca será de mais afirmar a dívida que gratidão da Pátria para com esses bravos obreiros do Movimento de 25 de Abril. B no momento «m que a sua tarefa se conclui, cumpre-me expressar o apreço da Nação por quantos souberam situar acima de pressões e conformismos os superiores interesses da grei.
Eis, senhores conselheiros, o enquadramento geral da alta missão que sem desfalecimentos nos compete cumprir, proporcionando ao País o desenvolvimento de um processo democrático, pautado no respeito pela vontade soberana do povo português.
Resta-me formular os mais sinceros votos pelo êxito da tarefa a que metemos ombros, e que se completará quando, dentro de um ano, pudermos passar de consciência tranquila o testemunho que o Movimento das Forças Armadas nos transmitiu.

SPÍNOLA EM TOMAR (3/6/74)

Discurso do Presidente da República, general António de Spínola em Tomar, em 3 de Junho de 1974:
Bom Povo de Tomar. Vivo convosco esta hora grande de entusiasmo, a hora de encontro com um Portugal renovado, a hora da democracia, da liberdade e da justiça social. Como primeiro servidor de uma nova sociedade portuguesa, já legitimada pela inequívoca adesão à liberdade que lhe foi restituída, cumpre-me o indeclinável dever de vos acautelar contra todos aqueles que, directa ou indirectamente, estão empenhados em minar o ideário democrático que presidiu ao Movimento das Forças Armadas.
Estamos a iniciar os primeiros passos no caminho da democratização, da justiça social, do trabalho e da paz. Mas haverá que distinguir, desde já, a verdadeira democracia das ideologias que, a coberto de um falso conceito de liberdade, nos podem conduzir a regimes políticos bem mais despóticos do que o derrubado em 25 de Abril.
É bom que o Povo Português se não deixe iludir pela jovem embriaguez dos vivos à liberdade e à democracia, que muitas vezes cria um ambiente propício à entrada da contra-revolução. Passado o clima emocional dos primeiros momentos, é chegada a hora de tomada da consciência colectiva do Povo Português. Pelo recolhimento da sua intimidade deverá reflectir friamente sobre a realidade económica do País em que vive sob a pena de caminhar para uma crise de desemprego com todo o seu dramático cortejo de privações e de misérias. É bom, portanto, que o Povo Português se não deixe atordoar pela liberdade que lhe foi devolvida, porque, se tal suceder, cedo ou tarde, outros lha virão roubar.
A verdadeira liberdade não consente intimidações ou violência para sermos livres, para concordar ou discordar, mas ninguém pode ser livre para violentar a consciência do seu semelhante. Queremos de facto um País livre, digno e ordeiro e não uma absurda democracia que nos leve ao caos. Queremos um Portugal próspero, prestigiado e ocupando o seu verdadeiro lugar no mundo. Aqui mesmo em Tomar o povo desta terra algumas vezes disse corajosamente «não» aos reis de Portugal. Mas hoje chegou o momento de o povo de Tomar dizer «não», desta vez àqueles que procuram sabotar o processo de democratização em curso. Temos de nos habituar a consolidar a liberdade conquistada. Escutemos, analisando, observando, criticando construtivamente, formando opiniões, mas acautelando-nos das manobras dos oportunistas, buscando se são viáveis as promessas falsas aliciantes ou se, pelo contrário, não passam de meros processos demagógicos utilizados para fins inconfessados.
A ambição humana, a ambição do poder é de todos os tempos e a consciência política dos cidadãos deve levar-nos a saber distinguir se outras correntes em presença, as que servem verdadeiramente o povo e os que apenas desejam servir-se dele para alcançar posições de mando.
É esta a consciência política que a pouco e pouco se impõe tomar. E ao sentir o calor do vosso acolhimento mais se me radica no espírito a convicção de que o Povo Português saberá escolher por si o que lhe serve repudiando a palavra vazia dos falsos arautos da liberdade. Bem hajam por esta hora alta de clara afirmação da indestrutível vontade de um povo que deseja conseguir a paz e sobretudo uma nação livre e digna.



SPÍNOLA NA OTA (10/6/74)

Força Aérea, aqui representada em todos os escalões e nas pessoas hoje condecoradas.
Não será formal o Presidente da República falar numa cerimónia deste tipo. Efectivamente não vos fala o Presidente da República. Fala-vos o militar, o soldado, o combatente. E nesta hora histórica e crítica que o País vive, reivindico, para além das funções que exerço, a minha qualidade de combatente. Foi, portanto, com viva emoção que ouvi as palavras que antecederam esta cerimónia: e não foi também sem profunda emoção que acabo de condecorar viúvas e filhos de camaradas, e, entre os vivos, os heróis hoje aqui consagrados.
As palavras que ouviram do representante do Movimento das Forças Armadas foram bem elucidativas. As Forças Armadas responderam, na manhã do dia 25 de Abril, aos políticos que as não souberam compreender, e que à sua sombra estavam conduzindo o País à desagregação e ao caos.
Não é altura de recordar o passado, no qual as Forças Armadas foram as grandes vítimas de uma política deficientemente orientada, ou melhor preconcebidamente orientada, no sentido do seu desprestígio, fazendo-as assumir as responsabilidades que não lhes cabiam. Por isso, bem-haja os jovens oficiais a que se ficou devendo o movimento de 25 de Abril. O movimento que, se por um lado libertou o País, restituindo-lhe a legitimidade do poder político, por outro, veio fazer justiça às Forças Armadas.
Hoje, o País vive uma nova era. Estamos no início da construção dum Portugal novo. A nós, Forças Armadas, compete-nos permanecer vigilantes, atentos, para que o passado não volte e para que jamais alguém tenha a veleidade de novamente nos imolar em benefício de interesses políticos
Em todos os tempos, nas horas críticas, a Pátria sempre se encontrou naqueles que o povo elegeu como sendo os melhores – os homens de carácter, os valentes, os bravos. Estamos presentemente, empregando todos os nossos esforços para que a paz volte ao Ultramar. Mas estes anos de guerra tiveram um mérito: revelar de entre todos os melhores, sempre tão necessários nos momentos difíceis da vida das pátrias.
Era isto que aqui vos queria dizer, nesta hora confusa, nesta hora mista em que a tradição competia com o autêntico patriotismo. Nesta hora histórica, hora em que se abrem amplos horizontes a uma vida melhor para a nossa Pátria, mas em que é preciso falar bem claro para que não sejam traídos os legítimos anseios do bom povo português, em que se inspirou o Movimento das Forças Armadas ao longo de treze anos de luta no Ultramar. Longo período em que mais do que a retaguarda, mais do que alguns daqueles que arvoram dísticos e fazem manifestações, elas foram a grande vítima.
É esta a palavra de gratidão que a Pátria deve às Forças Armadas nesta hora, e é esta palavra de gratidão que neste momento, para além do militar, do soldado, do combatente que sou, o Presidente da República aqui vos veio trazer.»

SPÍNOLA EM TANCOS (2/8/74)

Conhecemo-nos bem. Estão aqui presentes muitos oficiais, sargentos e soldados pára-quedistas que me conhecem das horas boas e das horas más, das horas de construção do progresso das terras do ultramar e das horas em que à guerra tivemos de responder com a guerra.
Para alguns de vós, é o seu velho comandante-chefe que lhes fala, animado pelo mesmo patriotismo de sempre e a mesma firme determinação. Por isso vos trago uma palavra de confiança e de calma – aquela calma e confiança que um combatente pode manter, pois sabe que não cede e que, conscientemente, joga a sua vida pela Pátria.
Acabastes de ouvir as palavras do vosso comandante, que foram palavras de um português e de um militar, definindo bem os objectivos de 25 de Abril. Seremos fiéis à linha do Movimento e à pureza dos seus princípios. Ouvistes há dias a minha comunicação ao País, na hora histórica em que nos encontramos com nós próprios, demonstrando inequivocamente a sinceridade e a autenticidade de uma política. As palavras do vosso comandante, ao descrever uma passagem da sua comissão na Guiné, demonstram que aquela comunicação representou, efectivamente, a cúpula de uma linha coerente de pensamento.
Não é na demolição sistemática, não é na constante agressão ideológica, não é fomentando ódios, não é ofendendo gravemente as Forças Armadas e pondo em causa princípios consagrados da ética militar que se constrói o futuro. Mas podeis ter confiança. O Chefe Supremo das Forças Armadas é o mesmo de sempre e não se desviará da sua ética militar, que se afinal, a ética da Pátria. Não suportaremos que algum português duvide das intenções das Forças Armadas. Foram elas que se bateram no ultramar e que fizeram o 25 de Abril; e continuarão hoje a defender a Pátria com a mesma determinação.
Encaro o futuro do País com calma e com verdadeira confiança; e essa confiança assenta fundamentalmente no alto sentido de patriotismo das Forças Armadas, onde situo, entre os melhores, o Regimento de Pára-Quedistas. Nunca virastes a cara nas horas de perigo; e é com homens como vós que se constroem as pátrias. Assim como construímos no ultramar, nos últimos anos, algo de que nos podemos legitimamente orgulhar, assim assumimos, no 25 de Abril, a responsabilidade plena de construir uma mãe – pátria melhor e com mais justiça social. Formulo votos para que o futuro que estamos edificando seja digno de vós.

A JUNTA AMEAÇA (4/8/74)

O Programa do Movimento das Forças Armadas, de cuja execução a Junta de Salvação Nacional é constitucionalmente garante, impõe o respeito rigoroso da lei, pois o regime democrático que se propõe Instituir no País não pode construir-se se as instituições forem desrespeitadas e postergados os direitos e os deveres dos cidadãos.
Alguns elementos, agrupados em movimentos políticos extremistas ou agindo individualmente, têm vindo a desencadear acções que visam desacreditar as Forças Armadas e minar as Instituições políticas, com o objectivo de impedir o desenvolvimento do processo de democratização da vida política do País.
Estas acções, que têm deparado com a sentida oposição do povo português, não podem deixar de ser consideradas como crime de lesa - liberdade e lesa - democracia e, como tal, aqueles movimentos revelam-se declaradamente contra o espírito do Programa do Movimento das Forças Armadas.
Assim, todos os que actuarem criminosamente em concreta agressão ideológica às Forças Armadas, ou aos princípios proclamados pelo seu Movimento, quer através de meios escritos, quer em reuniões ou manifestações públicas, serão rigorosamente punidos.

A RENÚNCIA DE SPÍNOLA (30/9/74)

A crescente deterioração do clima social, económico e político, ultimamente mais acentuada, tem constituído, para mim, motivo de mais funda preocupação. Sobre as origens da situação a que chegamos me tenho debruçado num esforço de análise que sempre se orientou pela pureza dos princípios que informaram o espírito do 25 de Abril. Esforço de análise a que me obrigaram a minha consciência de português e a minha responsabilidade de Presidente da República, pois assumi, perante o País o compromisso de responder pela restauração das liberdades cívicas e pela construção de uma democracia Institucional autêntica. E nessa tarefa me empenhei com sinceridade inequívoca e férrea determinação.
É dessa análise e da posição que assumo com base nas conclusões alcançadas, que desejo informar o Conselho de Estado e o País, para que sobre elas se não teçam interpretações inexactas, nem se deturpe a honestidade das intenções que lhes presidiram.
Começarei por afirmar que não é de hoje nem de ontem a minha adesão ao espírito do Movimento das Forças Armadas. Desde a nomeação para o cargo de governador da Guiné que sempre expus frontalmente, primeiro sem publicidade por dever de ética, e depois publicamente, a minha total oposição ao ideário e aos métodos do velho regime. E isso sem rodeios nem eufemismo, antes falando a rude linguagem da verdade que, como soldado e como combatente, jamais deixei de utilizar.»
Estive com o Movimento desde a primeira hora, pelo que conheço perfeitamente o seu espírito e as suas intenções, a que aderi com uma sinceridade de que ninguém ousará duvidar. E são exactamente esse conhecimento e essa identificação que me conferem irrecusável autoridade moral para concluir que a origem da situação a que chegámos reside na desvirtuação do ideário do Movimento. Encontro-me perante a evidência de o Programa do Movimento das Forças Armadas estar a evoluir no quadro de uma acção política tendente, afinal, à sua própria neutralização, em verdadeiro clima de inversão de uma moral cívica à margem da qual se torna impossível a prática da democracia e da liberdade. Inversão em que, por fidelidade ao espírito do Movimento e pelo respeito aos compromissos que assumi ao aceitar este cargo, não devo nem posso, participar. Dois ou três pontos bastarão para o justificar.
Esteve no espírito do Movimento das Forças Armadas definir, concreta e objectivamente, uma política ultramarina que conduzisse à paz entre os portugueses de todas as raças e credos, objectivo que o anterior regime se revelou totalmente incapaz de atingir. Essa política definimo-la nós, ao estabelecer inequivocamente e com geral aceitação os princípios programáticos do processo de descolonização que o mundo e os homens de sã consciência reconheceram válidos. Toda essa política e o consequente processo de descolonização foram deturpados, numa intenção deliberada de os substituir por medidas antidemocráticas e lesivas dos reais interesses das populações africanas.
Esteve igualmente no espírito do Movimento das Forças Armadas promover a harmonia entre todos os credos políticos. Mas, essa harmonia jamais será possível quando, por um lado, os chefes declarados de alguns partidos políticos fazem apelo ao bom senso, e por outro lado os respectivos grupos de acção enveredam pela via de coacção psicológica através dos grandes meios de informação, e até da violência, em flagrante negação da liberdade e a pretexto da insinuação caluniosa logo lançada sobre os seus oponentes.
Esteve no espírito do Movimento das Forças Armadas reservar à Nação, através das suas legítimas instituições democráticas, a definição do perfil da sociedade que os Portugueses desejam construir. Mas esse princípio encontra-se claramente ameaçado, senão já de todo comprometido, pela sistemática cedência perante a realização larvar das reformas de fundo, que dia a dia se vão operando face ao clima vigente de ausência de lei.
Daí resulta que, no fim deste longo período de anemia, a Nação Portuguesa se encontrará perante situações irreversíveis, fortemente limitativas do estatuto constitucional que vier a ser escolhido em consenso popular. Tais situações estão, desse modo, retirando ao povo a sua real capacidade para o exercício da soberania.
O Programa do Movimento previa também que a substituição do regime deposto teria de processar-se sem convulsões internas que afectassem a paz, o progresso e o bem-estar do Povo Português. A situação é, infelizmente, bem diferente. Forjam-se reivindicações, postas nas mãos dos trabalhadores por burgueses frustrados do velho regime, subitamente titulados também de trabalhadores. A paz, o progresso e o bem-estar da Nação são comprometidos pela crise económica para que caminhamos aceleradamente, pelo desemprego, pela inflação incontrolada, pela quebra no comércio, pela retracção dos investimentos e pela ineficácia do poder central. Isto porque quanto se vem fazendo à sombra do Programa do Movimento das Forças Armadas pouco menos é do que o assalto aos meios de produção. É a reivindicação com base em decisões tomadas a níveis sem competência nem legitimidade para o fazer; enfim, é a inversão das estruturas, à margem da sanção democrática do povo. Anulam-se as leis do velho regime antes que novas leis regulem a vida política, social e económica do país e mesmo algumas das leis já publicadas são impunemente escarnecidas. Neste clima generalizado de anarquia em que cada um dita a sua própria lei, a crise e o caos são inevitáveis, em flagrantes contradições com os propósitos do Movimento. Por várias vezes chamei a atenção do País para as consequências a que tal estado de coisas acabaria por conduzir; e após profunda e demorada reflexão tomei nítida consciência de não estarmos a caminhar para o país novo que os Portugueses desejam construir.
Conclui assim ser inviável a construção da democracia sobre este assalto sistemático aos alicerces das estruturas e instituições por grupos políticos cuja essência ideológica ofende o mais elementar conceito de liberdade, em flagrante desvirtuação do espírito do 25 de Abril. Encontro-me, portanto, perante a impossibilidade de execução fiel ao Programa do Movimento das Forças Armadas, o meu sentido de lealdade inibe-me de trair o povo a que pertenço e para o qual, sob a bandeira de uma falsa liberdade, se estão preparando novas formas de escravidão.
Tenho dedicado toda a minha vida ao serviço da Pátria e não desejo que fique a pesar-me na consciência haver alguma vez traído aos meus concidadãos. Nestas condições, e perante a total impossibilidade de, no actual clima, se construir uma democracia autêntica ao serviço da paz e do progresso do País, renuncio ao cargo de Presidente da República.
Ao dirigir ao Conselho de Estado e ao Povo Português esta mensagem de renúncia, desejo reafirmar a minha indestrutível vinculação aos ideais da liberdade e da democracia e a minha inabalável obediência a princípios básicos de ética militar, que me inibe de participar em projectadas estruturas revolucionárias. E no momento em que, uma vez mais, o País está na iminência de ver esses ideais comprometidos, lanço o meu último apelo para que cada português conserve a necessária serenidade de espírito, se mantenha em paz, confie na força do voto secreto, a grande arma democrática dos homens ordeiros e livres, e jamais consinta que a sua consciência seja violada.
Termino formulando os mais ardentes votos para que a causa da liberdade e da democracia triunfe de facto sobre quantos dela se vêem apenas servindo. E levo comigo o conforto da certeza de tudo haver feito para manter intacto o espírito do 25 de Abril, do qual me constitui intransigente defensor e garante.

«O M. F. A. NÃO TEM PARTIDO» (6/11/74)

Tendo surgido ultimamente algumas referências susceptíveis de interpretações incorrectas sobre a ligação do M. F. A. com partidos ou movimentas políticos, a Comissão Coordenadora do Programa do M. F. A., através da 5,a.ª Divisão do BE. M. G. F. A., esclarece:

O M. F. A. fez uma revolução para derrubar o fascismo, devendo, portanto, a sua orientação ser considerada na linha progressista.
A À esquerda do fascismo (fórmula política do desespero para garantir a manutenção do capital monopolista) situa-se um leque de possíveis soluções todas eivadas em maior ou menor grau de tendências socialistas. São elas que representam o sentido progressista dia revolução, pois baseiam-se no reconhecimento de que o Estado terá de intervir para garantir o caminho da maior justiça social.
O M. F. A. não tem partido político, nem é um partido político.
O M. F. A., interpretando a vontade da esmagadora maioria dos portugueses, dinamiza as Forças Armadas que nele se vão transformando, polariza todas as forças democráticas e exige o cumprimento do programa que apresentou à Nação.
O M. F. A. encontra-se acima dos partidos políticos, aceitando todos os que se não oponham ao seu programa. Unido com o povo, assegura a instauração de uma autêntica democracia pluralista em Portugal.
O M. F. A. encontra-se atento relativamente àqueles que, camuflada mente, fazem o jogo da reacção, e combate, vigorosamente, todas as formas de sabotagem da ordem pré-democrática estabelecida.
O M. F. A. não se encontra comprometido com qualquer movimento político.
Acolhe e incentiva as forças antifascistas, mas não se vincula a nenhuma delas, porquanto são múltiplas as formas de expressão democrática e todas são necessárias e devem existir, traduzindo a variedade das opiniões e a prática das liberdades.

Costas GOMES ANUNCIA A DATA DAS ELEIÇÕES (11/2/75) As eleições para a Assembleia

Constituinte realizar-se-ão no dia 12 de Abril de 1975.
Proclamo publicamente esta data cumprindo os termos do n.º 6, art. 7 ° da Lei n.º 3/74.
Convém recordar que nas grandes linhas do Programa do MFA, descolonizar e democratizar eram as generosas motivações de homens corajosos que não dormiram a noite de 25 de Abril.
Ninguém tem dúvidas quanto aos passos fundamentais percorridos na descolonização, nessa ronda inevitável dos caminhos da História; ronda que se aproxima de um epílogo original, genuinamente português.
Pois bem, no caminhar para a Democracia a data que hoje fixei será um marco fundamental na longa rota a percorrer.
Estas primeiras eleições acabarão por determinar os homens a quem compete a transcendente responsabilidade de preparar a Constituição, a Lei fundamental que lançará o povo a que pertencemos no rumo do futuro.
Votar é um direito de todo o eleitor mas é simultaneamente um dever imperioso. Nenhum português se negará à responsabilidade de votar, de votar tão conscientemente quanto lhe seja possível.
Votar é colaborar, não votar é trair o Povo.
Aproveito a oportunidade de hoje para fazer um balanço geral dos resultados de menos de um ano da nossa Revolução.
Começarei por reconhecer tantos erros e desvios individuais e colectivos feitos por homens e organizações egoisticamente agarrados a velhos privilégios; por oportunismo pseudo – revolucionários de ambiciosos do Poder; por massas populares, gente simples e boa, que interesses ocultos polarizam e manejam.
Estamos a aprender esforçadamente a viver em liberdade. Decretos não bastam.
A vivência em sociedade livre terá de impregnar os sentimentos, as atitudes e os comportamentos de todos nós; teremos de a conquistar, integrá-la na nossa personalidade colectiva num processo não isento de vários sobressaltos.
Evitaremos as ditaduras que marginam a rota revolucionária que prosseguimos.
Aos homens sem fé, aos fracos de vontade e de espírito, aos que desertam na caminhada, batidos pelas dificuldades da Revolução, aos feridos nos privilégios, aos impacientes, aos injustamente traumatizados, a todos recomendaria a leitura da história de tantas revoluções libertadoras.
A caminhada para a liberdade tem sempre um preço social em suor, sangue e lágrimas; só a generosidade dos autênticos revolucionários e a bondade e civismo do Povo Português tem permitido preço social tão baixo.
Todos nós, Povo de Portugal, vamos lutar mais com o espírito, trabalhar mais com as mãos, perseverando mais com a vontade, para construir uma sociedade livre com um mínimo de sofrimentos injustos.
Chegam até mim clamores de impacientes e de idealistas, portugueses que criticam o que chamam "ritmo lento da nossa Revolução". Falam-me outros, nos quais incluo estadistas estrangeiros que conduziram as suas revoluções libertadoras, do perigo da aceleração excessiva do processo revolucionário.
A extrema dependência económica de um mundo em crise, a tarefa urgente da descolonização, o artificialismo do sistema das forças de produção, o atraso e distorção educacional, são algumas das pesadas heranças que limitam a capacidade de aceleração revolucionária, sob pena de rotura do equilíbrio social que desejaríamos manter.
É reconfortante verificar quanto se fez em menos de um ano de Revolução.
Milhões de almas, povos irmãos, foram colocados no caminho descolonizante, génese de novas pátrias de expressão lusíada.
O Povo Português, intoxicado de decénios de propaganda da extrema-direita, dispõe agora de uma informação pública com órgãos livres, onde já se procura criar o justo equilíbrio no pluralismo de opiniões.
Os responsáveis pela Economia e Finanças criaram uma estrutura orçamental mais adequada, uma distribuição mais justa da carga fiscal, aumentaram o «controle» do Estado sobre a banca e a economia privada e preparam-se para actuar na conjuntura com base no novo Plano Económico já aprovado.
Iniciaram-se as intervenções do Estado nas empresas privadas e na implantação da reforma agrária.
Os sectores eléctricos, petrolíferos, siderúrgicos, comércio internacional, distribuição cooperativa dos bens de consumo, construção de navios de pesca, e outros sectores começam já a sentir a nova orientação do Estado para os desviar de interesses capitalistas exclusivos e os colocar ao serviço do Povo.
No plano da Administração Interna tentam-se soluções de democratização e descentralização administrativa e mantém-se firme o rumo pré-eleitoral cheio de dificuldades.
Na política externa, a colaboração na descolonização, o reajustamento e alargamento das nossas relações internacionais tem sido uma tarefa imensa a protelar uma exploração internacional mais intensa da nova situação nacional. A renegociação da Concordata e do acordo dos Açores são já vantagens fundamentais a considerar em curto prazo.
Tudo o que se refere a transportes internos, marítimos e aéreos está em plena reconversão, bem como o problema habitacional, a utilização da energia, as obras públicas e a defesa do ambiente.
Nunca se trabalhou tão intensamente nos problemas de segurança nacional dos trabalhadores, onde se estão a criar ou melhorar esquemas de protecção contra a doença, o acidente, o desemprego e a velhice.
Nas relações capital/trabalho procura-se orientar uma turbulência excessiva, limitar aventuras pseudo – revolucionárias, mas importa sobretudo continuar a reforçar a luta ordeira mas firme dos trabalhadores que trabalham e por isso conquistam legítimos direitos a uma vida melhor e mais digna.
No campo da educação nacional tudo o que foi feito, incluindo a democratização da gestão dos estabelecimentos de ensino, a revisão dos programas primários, preparatórios e secundários, os acordos culturais, o trabalho de planeamento e preparação, parece não impressionar.
É um esforço camuflado pela selva imensa do que está por fazer, tarefa intrinsecamente gigantesca agravada por correntes extremistas de pensamento, por fascistas ou pseudo – revolucionários a quem Portugal Livre parece não convir.
Pensemos ainda no que se realizou ou preparou no campo da saúde, em medicina preventiva, em democratização do sistema hospitalar, em regularização das carreiras profissionais.
Gostaríamos de ter realizado mais e melhor, mas façamos justiça aos actuais responsáveis do Poder, trabalhadores infatigáveis que merecem alta cotação no mundo do trabalho honesto com que teremos de forjar um País democrático, autenticamente livre e justo.
Em termos fatalmente genéricos defini os eixos por onde avança a nossa Revolução, com o impulso e a segurança social na mão dos homens do M. F. A., das forças autenticamente democráticas e, sobretudo, do Povo ide Portugal.
Aos timoratos, aos privilegiados do anterior regime, a todos quantos agora se deixam entrar em ressonância com a descrença ou o alarmismo recomendaria mais coragem e vontade de colaborar no futuro das classes mais desfavorecidas sem pensar tanto na tranquilidade e no conforto próprio.
Aos ultopistas, aos vendedores de ilusões, aos cultivadores do ódio e da violência, aos vingativos, aos nefastos manipuladores da opinião pública recomendaria um exame de consciência e uma nova atitude face a um Povo que quer ser livre, trabalhar mais e distribuir melhor a riqueza produzida.
No Portugal novo irão caber todos os homens justos, trabalhadores de recta intenção.
Cabe agora, que vamos realizar as primeira eleições, chamar a atenção aos que, em palavras e escritos, se dirigem aos responsáveis do Poder exigindo medidas autocráticas para grandes e pequenos males que detectam ou julgam vislumbrar.
Estamos num Portugal novo; o poder autocrático e individual não voltará. O poder é e será exercido por órgãos colectivos emergentes de um sistema de forças democráticas. Haveremos de aceitar pequenos inconvenientes nas grandes vantagens da democracia pluralista em construção.
Terminarei com dois apelos. O primeiro quero dirigi-lo aos partidos autênticos, aqueles que verdadeiramente são representativos de segmentos genuínos do Povo de Portugal.
A felicidade possível de todos nós depende muito da vossa acção esclarecedora e pedagógica junto das massas populares. Intensificai tudo quanto contribua para a unidade no sentido de se construir uma democracia pluralista e livre e procurai esquecer os atritos possíveis na luta política.
Neste momento a hora é de construção de um sistema em que caibam todos os partidos autênticos; mais tarde, numa sociedade mais politizada, sendo livres sempre poderemos corrigir as posições relativas que justamente caibam a cada doutrina partidária.
Cordialidade, generosidade e lealdade na luta são atributos dos verdadeiros combatentes da liberdade.
O segundo apelo dirige a todos os eleitores. Votai, mas votai com consciência; não nos envergonhará a falta de cultura política porque até essa sempre nos foi negada e escamoteada.
Teremos agora de dialogar, escutar, ler, falar, estudar os programas partidários, treinar o nosso espírito crítico para obter uma escolha consciente e válida.
Não vejamos fantasmas nos arautos da liberdade, mas não aceitemos a ilusão dos fogos-fátuos, belos mas estéreis, de utopias totalitárias.
Sobretudo rejeitemos partidos ou doutrinas que oferecem para já a violência e o ódio em troca de um suposto paraíso futuro a que tal caminho jamais conduziria.
Saúdo o 12 de Abril de 1975, que prevejo padrão luminoso no avanço revolucionário que conduzirá à Democracia pluralista livre e autêntica.
Saúdo todos os eleitores que votem conscientemente em partidos válidos para a Revolução Portuguesa.
Vamos contribuir com o nosso voto para se obter uma Constituição que nos garanta um futuro em Liberdade, fraternidade, progresso e justiça social.

O SOCIALISMO É TAREFA DOS TRABALHADORES (COMUNICADO DO CONSELHO DA REVOLUÇÃO - 19/4/75)

O Conselho da Revolução apreciou a situação da economia na actual fase do processo revolucionário português, verificando, designadamente, a deficiente utilização da capacidade produtiva do País em recursos humanos e materiais, acompanhada da redução do nível de investimento, o crescente desequilíbrio da balança de pagamento e a persistência da pressão inflacionista, embora em atenuação nos últimos meses.
Tal situação é consequência natural do desenvolvimento dum processo revolucionário que tem vindo a desmantelar o poder do capital monopolista, agravada pela reacção dos seus detentores, que a todo o custo têm tentado impedir a perda dos seus privilégios.
Vivemos assim uma crise largamente resultante não só das estruturas económicas do fascismo e colonialismo como da desagregação do sistema capitalista em Portugal. Ë agora necessário e imperioso reconstruir a economia por uma via de transição para o socialismo. Está em causa consolidar os primeiros concretos da nossa revolução socialista e realizar novos avanços nessa direcção, atendendo a dois objectivos primordiais:
Garantir a independência nacional no arranque para um socialismo verdadeiramente português, evitando situações extremas de crise económica que nos coloquem em reforçadas e delicadas dependências externas; e identificar a dinâmica da classe trabalhadora com um projecto de construção do socialismo.
O Conselho da Revolução analisou os trabalhos em curso no âmbito do Conselho Económico relativo à preparação dos programas de medidas económicas de emergência, tendo definido as seguintes orientações gerais:
- É necessário que os trabalhadores sintam que a economia já não lhes é estranha, ou seja, que a construção socialista da economia é tarefa deles e para eles. Isto implica a afirmação clara do princípio de controlo organizado de produção pelos trabalhadores para objectivos de produção e eficiência coordenados pelos órgãos centrais de planeamento segundo esquemas a definir com brevidade.
- É indispensável estabelecer uma limitação dos consumos a partir dum princípio de máximo nacional de rendimento disponível extensível aos titulares de todos os rendimentos e não apenas ao trabalho por conta de outrem
- Igualmente se torna indispensável garantir a contenção dos preços de bens essenciais,sobretudo alimentares.
- Deverão ser completados os passos já dados no sentido da nacionalização dos sectores básicos de actividade económica (indústria, transportes e comunicações).
- Deverá ser aplicado um programa progressivo de reforma agrária integrado num todo coerente de medidas de política económica.
- Verificadas as condições anteriores, será legítimo fazer apelo à mobilização dos trabalhadores para o emprego produtivo, mobilização necessária à construção da sociedade desejada pelo povo português.
As posições definidas na reunião de ontem do Conselho da Revolução, a efectivarem-se num breve prazo, traduzir-se-ão em passos no arranque para uma via socialista já apontada pelas vanguardas do povo e também na última Assembleia do M. F. A., onde além de oficiais participaram sargentos e praças.
Os esforços desenvolvidos desde o aberto comprometimento do M. P. A. com a via que abrira em 25 de Abril têm até agora dado resultados limitados, embora particularmente vivos cada vez que se responde aos ataques da reacção (nomeadamente após o 28 de Setembro e o 11 de Março). Esses esforços tiveram reflexo nomeadamente no último relatório da Organização da Coordenação e Desenvolvimento Económico, segundo a qual Portugal foi um dos países onde a taxa de inflação baixou em relação a períodos anteriores, pese embora seja ainda muito alto o ritmo de aumento de preços.
É ainda no sentido de diminuir a inflação que se devem compreender as linhas gerais agora definidas. E elas são coerentes.
A inflação é, no fundo, o aumento sucessivo de preços que tanto preocupa e desmoraliza os trabalhadores, que vêem os seus melhores salários desaparecerem, ultrapassados pelos preços de mercado. Ela é, por outro lado, resultado das diferenças entre os meios de consumo e os de produção, quando os primeiros pressionam o aumento de preços sempre que não existe aumento de produção.
Um efectivo meio de combate à inflação é a limitação do consumo e o aumento de produção, equilíbrio que se consegue através da acentuação de um dos factores de equilíbrio: o da produção à custa dos trabalhadores e do consumo à custa dos privilegiados.
Esta base é essencialmente para compreender a definição das várias linhas de arranque para o socialismo agora feita pelo Conselho da Revolução, nomeadamente quando se refere «limitação dos consumos a partir de um princípio máximo nacional de rendimento disponível extensível aos titulares de todos os rendimentos e não apenas dos empregados», isto é, vai atacar-se realmente os exploradores, que, nada fazendo, vivem dos rendimentos do trabalho de outros, e já não haverá apenas um equilíbrio entre os privilegiados e as classes desfavorecidas.
Com estas e outras medidas, como nacionalização de actividade económica, contenção dos preços essenciais, reforma agrária, o Conselho da Revolução espera legitimamente conseguir a mobilização dos trabalhadores, tão necessária à construção da sociedade desejada pelo povo português
ASSEMBLEIA DO M. F. A. DA ARMADA DEFENDE SISTEMA PLURIPARTIDÁRIO
PARA O SOCIALISMO (19-4-75)

A nova Assembleia do M. F. A. da Armada, constituída por oficiais, sargentos e praças, reunida em 19 de Abril de 1975, declara que orientará as suas actividades segundo os princípios já emanados do Conselho da Revolução em especial: Reconhecimento do carácter socialista da revolução portuguesa, entendendo-se como tal o caminho firme no sentido de passagem capitalista para a colectivização dos meios de produção terminando com a exploração do homem pelo homem.
Na ordem política interna, a constituição de um sistema pluripartidário formado pelas forças políticas verdadeiramente interessadas na revolução socialista de forma a garantir a construção do socialismo, a defesa eficaz do processo revolucionário e as liberdades democráticas.
Na ordem política externa, a garantia de uma total independência nacional, de acordo com os princípios de não ingerência nos assuntos internos das nações e de uma ampla solidariedade com todos os povos do mundo, em particular com os de língua portuguesa.
Na Armada, seu fortalecimento no sentido de sua inteira colocação ao serviço dos interesses da grande maioria do povo português, tornando consequente a aliança povo M. F. A. e sua democratização na construção de uma disciplina consciente e revolucionária baseada na igualdade de oportunidades de aceso e na hierarquia da competência.

COSTA GOMES ENCERRA A CAMPANHA ELEITORAL (24/4/75)

No eterno devir da História, poucas horas caíram sobre o encerramento da primeira campanha eleitoral do Portugal novo, mais independente e mais livre.
Entrámos no período que a lei e o bom-senso destinam à meditação dos eleitores na antecâmara de uma transcendente decisão. Vamos escolher e votar no partido que a consciência nos indique como o mais apto a intervir no futuro do povo que somos.
«Procurarei integrar-me bem nos objectivos do MFA ao cumprir a minha missão de dirigir uma palavra amiga ao povo a que orgulhosamente pertenço.
Desempenharemos todos amanhã o acto decisivo do esquema eleitoral, a colocação nas urnas do nosso boletim de voto.
Sobre o valor deste acto da vontade, temos ouvido opiniões variáveis, desde um extremismo de o considerar supérfluo e nefasto, ao outro extremismo de o considerar como essência de todo o pensamento e teorização da ciência política.
No estádio actual da civilização humana, a vontade popular é a verdadeira fonte do poder político.
A determinação desta vontade colectiva, quando feita por um esquema eleitoral, como toda a obra humana, incorpora alguns defeitos, a par de muitas virtudes e certezas.
Hipertrofiando uns ou outras, é possível construir raciocínios que condenem ou sacralizem a aplicação de um sistema eleitoral.
Seja como for, dentro dos actuais conceitos da ciência política, as soluções eleitorais são aquelas que melhor garantem a definição da vontade popular e, quando pluralistas, têm a altíssima vantagem de garantirem permanentes ratificações ou correcções.
Acreditamos sinceramente que, ao escolher esta via de análise, democrática e pluralista, o MFA ofereceu a melhor das soluções possíveis ao seu representado e aliado, o povo de Portugal.
Considerada indiscutível esta solução, façamos todo o balanço da importante fase já concluída, a campanha eleitoral, onde o povo e os partidos desempenharam os papéis fundamentais.
Não nos alarmemos com certos desvios a que gente simples e boa se deixou conduzir por agitadores pseudo – revolucionários e reaccionários de extremismos opostos. Em termos gerais, com saldo altamente positivo, o povo demonstrou elevado civismo e suficiente politização para desarmar intelectuais paternalistas, observadores pessimistas e os arautos das convulsões sociais.
O povo mereceu um voto de confiança no futuro.
Quanto aos partidos, não generalizemos culpabilidades esquemáticas. Havemos de colocar fora da análise os utopistas, os cultivadores do ódio e da violência, manipuladores do substrato inferior do inconsciente colectivo.
Considerando apenas os partidos autênticos, resolvemos as poucas atitudes discutíveis para sublinhar o amplo contributo dos esforços sérios de acção didáctica e esclarecimento democrático que souberam realizar.
Mereceram um voto de esperança na democracia pluralista do socialismo português em gestão.
Fechemos aqui o balanço do passado próximo e reportemo-nos ao futuro imediato, o exercício do voto no dia memorável de 25 de Abril de 1975.
Votar é um dever de consciência, votar conscientemente é um dever nacional.
Procuraremos todos com afinco estudar a decisão final, se ainda não a tivermos feito, com a certeza de que o essencial é exactamente esse esforço de procura, essa decisão como acto último da vontade política de um povo que quer ser livre.
Nas grandes crises políticas da nação, o povo português sempre decidiu com uma consciência intuitiva, que ultrapassou em validade a consciência racionalista de elites amolecidas.
Eu acredito no progressismo empírico do povo que somos. Escolheremos entre os partidos autênticos que não barram a via socialista e que nos prometeram o pluralismo essencial ao exercício da liberdade.
Ao terminar, considerada indiscutível a necessidade de votar, desejo sublinhar também a extraordinária importância de que este 25 de Abril seja um dia onde imperem a ordem e a serenidade característica do povo português.
No plano nacional, o clima tranquilo, afastará fantasmas ideológicos; muitos privilegiados do antigo regime temem menos os prejuízos materiais do que os indefinidos terrores políticos que a ditadura inculcou no seu inconsciente colectivo.
No plano externo, o civismo calmo que todos esperamos recordará ao Mundo que meio século de ditadura não destruiu os valores sociais de oito séculos de história ímpar.»